23 novembro 2017

"thanksgiving"


[Freedom from Want is a painting by American artist Norman Rockwell. The painting, which is also known as The #Thanksgiving Picture, is an oil on canvas work completed in 1943, and is in the Norman Rockwell Museum in Stockbridge, Massachusetts.]


O thanksgiving, os EUA e eu
(por menos que isto, não faço ;)  )


Thanksgiving, só há o americano. O da quinta-feira que antecede a Black Friday, o do peru e da pumpkin pie, o da família reunida à mesa e o do patriarca a rezar para todos, o do jogo de futebol americano, o da parada do Macy’s. O resto são festinhas, ou celebrações que vão morrendo com o mundo rural – como a Festa das Colheitas. A Festa das Colheitas, se querem saber, ainda agora se celebra nas igrejas das cidades alemãs. Enchem os altares de cereais e frutos como se fosse uma grande coisa, até parece que não sabem que isso existe nos supermercados o ano inteiro, e até a preços bastante acessíveis.


Mas a Festa das Colheitas e as celebrações de Acção de Graças não são, como disse, o Thanksgiving.
Quando fomos morar nos Estados Unidos achávamos que já sabíamos tudo sobre esta comemoração. Afinal de contas já tínhamos celebrado alguns com amigos da comunidade norte-americana que vivia na nossa cidade alemã (sim, que os soldados americanos não abandonaram a Alemanha mal o muro caiu). Como um amigo meu comentou uma vez, a propósito das férias que passava no Douro, na casa de um padre onde havia uma cozinheira fantástica: “tínhamos de rezar antes de comer, mas valia a pena”. Oh, se valia! O fiambre assado, o presunto recheado, o baked macaroni and cheese, o puré de batata, o cranberry sauce, a pumpkin pie, tudo! Depois do jantar, eu lembrava-me com muita urgência dos meus deveres de mãe, e levava os miúdos para casa porque eram horas de dormir, e assim escapava à seca do futebol americano. Os outros ficavam em frente à televisão, a beber cervejas e a soltar exclamações. Um Thanksgiving bem passado, em suma.

Pois, quando nos mudámos para os EUA pensávamos que sabíamos tudo sobre o Thanksgiving, mas a verdade é que nem da missa a metade. Aprendemos o resto com os nossos filhos, que em Outubro nos desatavam a contar histórias mirabolantes de pilgrims e índios, e na semana do Thanksgiving preparavam com muito entusiasmo os seus apetrechos para a festa na escola. É que, antes de comer os pratos típicos da data, tinham de encenar aquele momento histórico em que os pilgrim chegavam de barco, os índios os recebiam com toda a gentileza, e logo ali faziam uma grande festa com peru assado, corn bread e pumpkin pie.

Eu enternecia-me com o ar sério deles no papel de pilgrim ou de índio, conforme lhes calhasse, e nem me percebia da estratégia da propaganda e da lavagem ao cérebro que ali estava a decorrer. Só me dei conta no dia em que uma adulta nascida e criada nos EUA começou a dizer-me, com um ar muito concentrado e com todo o detalhe, como tinha sido essa festa e o que tinham comido. Quase lhe perguntei se não se estava a esquecer do baked macaroni and cheese...

A maior parte dos norte-americanos acredita piamente naquele episódio de paz e amor entre os povos, tal e qual, com pumpkin pie e tudo.  

A verdade é um pouco diferente, e começa com o Martinho Lutero, esse extraviado [o mais tardar aqui, perceberão que sou católica] [e que estou a brincar] que andou a provocar cisões na Santa Madre, e pôs as pessoas a pensar pela sua cabeça em vez de continuar a dizer ámen ao papa, de modo que cem anos depois andava tudo à turra e à massa, e um grupo da igreja congregacional, que era um ramo radical do puritanismo, que já se tinha separado do calvinismo, achou melhor ir de Inglaterra para Amesterdão, e daí para Leiden, e daí para Southampton, para se meter num barco e zarpar para um continente novo de cem anos, e onde provavelmente os deixariam em paz com a fé deles. Saíram em Setembro de 1620, e depois de uma paragem em Plymouth largaram “on a ship they call the Mayflower / a ship that sailed the moon / in the ages' most uncertain hours and sing an American tune”. A viagem durou mais tempo do que tinham pensado e os ventos levaram-nos para Cape Cod, em vez da Virgínia para onde tinham comprado o bilhete. Rapidamente perceberam que a terra arenosa da região onde tinham desembarcado não lhes daria de comer, pelo que rumaram um pouco mais a sul, instalando-se na terra a que depois dariam o nome de Plymouth – como quem diz que a História se faz em círculos. O inverno estava à porta, eles não tinham o que comer e não lhes ocorreu que um mar chamado Cape Cod devia ter o bacalhau suficiente para lhes compor a ceia de Natal, e as ceias dos outros dias todos. De modo que ficaram cheios de escorbuto no Mayflower, sem saber o que fazer à vida, e passaram tanta fome e tanto frio que morreram mais de metade dos 102 que tinham vindo de Inglaterra, e só não morreram todos porque se puseram a roubar os armazéns de víveres abandonados e os túmulos dos índios da região.

Os índios da região, por sua vez, tinham problemas para dar e vender. Três anos antes uma epidemia tinha atingido mortalmente muitos deles, e as tribos estavam traumatizadas e enfraquecidas. O que explica os depósitos de comida abandonados que os pilgrims encontraram: toda a população daquela aldeia tinha morrido.

O inverno passou. Em Março, quando os pilgrims resolveram instalar-se em terra firme, veio ao seu encontro um índio abenaki que os cumprimentou em inglês. Garanto que isto não é um filme Walt Disney, foi mesmo assim. Esse índio voltou uns dias depois com outro, que falava perfeitamente inglês. Era Squanto - e bem lhe podiam chamar Salvador! – que em tempos fora capturado pelo capitão de um navio inglês e vendido como escravo, e depois de fugir para Londres tinha voltado à sua terra numa missão de exploração. Squanto ensinou os pilgrims a cultivar as plantas daquela terra, a pescar nos rios e a evitar as plantas venenosas. Foi ele quem os ajudou trambém a celebrar um acordo de paz com os Wampanoag, que durou 50 anos e foi um dos poucos casos de coexistência pacífica entre europeus e populações nativas. Mas a este tratado de paz, curiosamente, ninguém liga hoje em dia. A única coisa que interessa os norte-americanos parece ser o peru, a pumpkin pie e o jogo de futebol americano.

Em Novembro de 1621, quase um ano depois de terem chegado àquela terra, os pilgrims fizeram uma festa das colheitas e convidaram alguns dos índios seus amigos. A festa repetiu-se dois anos mais tarde, para comemorar o fim de um período de grave seca, e foi entrando nos hábitos do novo país. Também, verdade seja dita, não era uma especialidade apenas dos pilgrims e dos índios seus amigos – a festa das colheitas já se fazia noutras regiões desse continente, bem como na Europa – e se formos a ver, até no Egipto antigo. A coisa foi evoluindo até que George Washington proclamou um dia de Thanksgiving para agradecer o sucesso das guerras de secessão e a criação da constituição americana. Em 1827, Sarah Josepha Hale, editora de uma revista e escritora (e escusam de dizer que não conhecem: é a autora de “Mary Had a Little Lamb”), começou uma campanha para que o Thanksgiving passasse a ser um feriado nacional. Andou nisto 36 anos. Finalmente, no apogeu da Guerra Civil, Lincoln considerou que era boa ideia criar um dia para pedir a Deus “to commend to his tender care all those who have become widows, orphans, mourners or sufferers in the lamentable civil strife” e ainda “heal the wounds of the nation.” O Thanksgiving passou a celebrar-se em todo o país na última quinta-feira de Novembro, até 1939, quando Roosevelt decidiu antecipar a data numa semana, para alargar o período de compras de Natal e assim fintar a Grande Depressão. O seu plano, a que chamaram desdenhosamente Franksgiving, encontrou enorme oposição, pelo que em 1941 o presidente se viu obrigado a assinar um decreto determinando que a data do Thanksgiving é a quarta quinta-feira de Novembro.  

Actualmente,  este feriado é o momento anual mais importante de encontro das famílias, com os consequentes engarrafamentos nas estradas e nos aeroportos, e ganhou alguns detalhes folclóricos como o desfile do Macy’s, em Nova Iorque, e o peru que recebe o perdão presidencial – algo que começou com Bush pai 200 exactos anos após a proclamação do Thanksgiving por Washington. Obama concedia o perdão com imensa graça (vejam os filmes no youtube), e Trump, enfim, fá-lo naturalmente à sua maneira trompassada. [Trompassada: pensava que era português, mas afinal parece que é catalão – tem a ver com “tropeçar”. Que chatice, dava-me um trocadilho tão bom para o Trump!]  

Em suma: o Thanksgiving tornou-se um elemento importante de reforço da identidade que um país tão novo como os EUA inventou para si. E funciona tão bem, que as pessoas  até acreditam naquela palhaçada dos Pilgrims a comer pumpkin pie com os índios.

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Depois de escrever tudo isto, deu-me a saudade de uma boa pumpkin pie. E dos passeios pelos campos de abóboras no Outono. E do peru bem assado. Um amigo meu faz um peru de Thanksgiving que fica uma delícia: deixa-o a assar em brandíssimo lume (acho que é 60º C) durante cerca de 24 horas. O truque permite assar por igual as carnes brancas e as escuras, fica tudo tenrinho, e nada seco. Hmmmm.
Ah, as saudades da tal pumpkin pie! Não tenho como fazer uma dessas aqui, porque as minhas receitas são todas com evaporated milk e pumpkin em conserva. Alguém sabe evaporar leite, e transformar uma abóbora fresca numa lata de abóbora?


gerador de piadas secas (2)

Socorro! Voltei ao local do crime.

Olhem-me esta:

Os pais descobrem que o filho tem no quarto revistas de práticas sado-masoquistas.
- E agora, que lhe fazemos?, pergunta a mãe.
- Acho que o melhor é não lhe bater..., responde o pai.


(Imploro-vos: ponham-me umas algemas, batam-me se chegar perto daquele gerador de anedotas!)

(Bem, se não me ajudam a combater o vício, conto mais algumas que entretanto os amigos foram acrescentando no meu mural de facebook, e outras que entretanto li)

(Tirem-me de lá!)
Uma muito boa para quando acabas de conhecer alguém:
- Quanto pesa um urso polar?
- Não sei.
- O suficiente para quebrar o gelo.


- Como se chama a um conjunto de lobos (wolfen)?
- Wolfgang.
Dois funcionários públicos encontram-se junto à máquina do café, diz um para o outro:
- Também não consegues dormir?
Quando um cientista prova um molho, o molho fica cientificamente provado?


- Quantas flexões consegue Chuck Norris?
- Todas!
 

- Você é Salvador Dalí?
- Não, sou daqui.

Três homens vão à caça. O primeiro tem uma espingarda, o segundo tem um cão, o terceiro tem cáries.
- Porque é que tens cáries?, perguntam-lhe
- Um em cada três tem cáries.
- O que é doce, e atravessa o deserto?
- Um caramelo.

- O que se encontra no duche de um canibal?
- Head & Shoulders.



gerador de piadas secas




Neste momento (em que as negociações para a coligação governamental falharam, etc.etc. etc.) o artigo mais lido no Spiegel online é um gerador de piadas secas. Fui espreitar, e já dei um bom par de gargalhadas. Os políticos vão ter de se desenrascar sem mim, que esta vida são dois dias, e este gerador de anedotas é viciante.
Infelizmente, quase nenhuma dá para traduzir. Ou felizmente, porque se desse corria o risco de passar o resto do dia a rir e a traduzir.
Em todo o caso, deixo aqui o link. Pode ser que adiante muito aos professores de alemão, entre outros. 

Algumas delas:

Como é que se chama um espanhol sem carro?
Carlos
[car-los = car-less em inglês]

A minha namorada gosta muito de brincar aos médicos.
Já está há duas horas sentada no corredor à espera.

Porque é que só raramente se vêem elefantes escondidos nas árvores?
Porque eles são mesmo bons nisso.

Qual é a diferença entre um pássaro?
Ambas as pernas têm o mesmo comprimento, especialmente a esquerda.
[O que me lembra o livro de Filosofia alemão que tem um título com o mesmo tipo de humor: "Quem sou eu, e, em caso afirmativo, quantos?"]

O menino Joãozinho está a chorar em cima de uma ponte. Uma senhora pergunta:
- Porque estás a chorar?
- Porque aquele homem deitou o meu pão ao rio.
- Com maldade?, pergunta ela.
- Não, com fiambre.

Dois palitos sobem a uma montanha e encontram um ouriço.
Diz um palito ao outro: se soubesse que havia um autocarro, não tinha vindo a pé!

Um homem entra num bar e encomenda dez cervejas e dez aguardentes. Depois de beber tudo, encomenda nove cervejas e nove aguardentes. Depois de beber tudo, encomenda oito cervejas e oito aguardentes. E assim sucessivamente.
Às tantas, comenta:
- Que estranho - quanto menos bebo mais bêbedo fico...

Esta não dá para traduzir, mas é tão tola que tenho de incluir:
Ela: Vou-me divorciar! Já não aguento mais o teu comportamento infantil!
Ele: Hihihihi! Disseste vagina!
[divorciar: scheiden; vagina: Scheide]

22 novembro 2017

"Weinstein"



Dei-me conta do escândalo #Weinstein devido a este artigo na New Yorker, escrito por Ronan Farrow, o filho de Mia Farrow com contas em aberto em Hollywood e em particular com o pai dele,  Woody Allen.

A gravação que vinha com o artigo reabriu uma ferida antiga em mim. Eu já falei com este tom de voz, já disse "não quero" e "deixa-me ir embora" com este exacto tom de voz. Tinha oito anos.
Nunca contei aos adultos à minha volta o que aconteceu nesse dia em Paris: fui-me despedir das minhas amiguinhas antes de regressar a Portugal, e o pai delas, que estava sozinho em casa, mentiu-me dizendo que elas estavam a brincar às escondidas, e atraiu-me à casa de banho. Só me deixou sair depois de eu ter cedido a dar-lhe o beijo que exigia. Foi apenas um beijo na cara, mas ando já há 45 anos a rogar-lhe pragas. Espero que algumas tenham funcionado, especialmente as que incluem pústulas, podridão e dores lancinantes na parte da cara que fui obrigada a beijar.
Porque é que não contei aos primos da minha mãe, com quem estava a passar férias? Porque é que não contei aos meus pais?

"Porque é que as mulheres não contam o que lhes fazem? Porque é que só agora é que lhes deu para se queixarem?" - é uma acusação frequente ligada ao escândalo Weinstein e à onda de testemunhos que se lhe seguiu.

Em Maio de 2016, o jornalista Ronan Farrow explicou com o exemplo da sua própria irmã o que acontece às mulheres que ameaçam os poderosos, e mostrou como a máquina de Hollywood protege os seus machos (My Father, Woody Allen, and the Danger of QuestionsUnasked). Uns meses depois, Ronan começou um trabalho de investigação sobre o comportamento de predador sexual de Weinstein, um dos poderosos que defendeu Woody Allen quando este foi acusado de abuso sexual pela própria filha. Andou dez meses a entrevistar mulheres e a preparar o artigo que, depois de ter visto a sua publicação recusada noutros órgãos de informação, foi publicado na New Yorker (From Aggressive Overtures to Sexual Assault: Harvey Weinstein’s Accusers Tell Their Stories).

 Em 2015, logo depois de ter sido vítima de abuso sexual por parte de Weinstein, Ambra Battilana Gutierrez, a modelo que se ouve na gravação no topo deste post, queixou-se à polícia de Nova Iorque, que lhe sugeriu que se encontrasse de novo com Weinstein e gravasse a conversa. Foi o que ela fez. Entregou a gravação à polícia. Esta, depois de falar com Weinstein, decidiu arquivar o processo. Entretanto, nos boulevards começaram a pipocar notícias que arruinaram o bom nome da modelo.

"Porque é que as mulheres só agora começaram a falar destes assuntos?" - o mínimo que se pode dizer desta pergunta é que é de um cinismo inacreditável. O que espanta é que, apesar de todas as ameaças e de todos os riscos, algumas tenham tido a coragem de denunciar algo que todos sabem e preferem fazer de conta que não vêem.

Porquê agora? Estou convencida que a vaga mundial de repúdio provocada pela gravação "grab them by the pussy" de Donald Trump, quando este concorria à presidência dos EUA, teve um papel muito importante na mudança da atitude em relação a estas histórias.

No entanto, o que me enfurece ainda mais do que o próprio conteúdo da gravação, é o facto de a terem divulgado por necessidade estratégica eleitoral, e não por uma questão de decência ou de revolta pelo modo como ali se fala das mulheres. A gravação existia desde 2005. Tudo nela é abjecto, mas durante uma década inteira ninguém se lembrou de a divulgar. Só a usaram em Outubro de 2016 - e foi porque era preciso evitar a todo o custo que Trump se tornasse presidente. Se Trump não tivesse concorrido às eleições, se não tivesse havido alguém que decidiu chegar ao extremo de divulgar material "sensível" como este para impedir a sua eleição, provavelmente ainda hoje quase nenhuma mulher teria a coragem de enfrentar um mundo que as hostiliza e castiga quando decidem acusar um homem poderoso. E o mundo continuaria a organizar-se para ignorar, desprezar e desconfiar das poucas que ousassem erguer a voz.

17 novembro 2017

"romantismo"

Ontem, na Enciclopédia Ilustrada, a palavra era "romantismo". Precisava de meter uma semana de férias para apreciar todos os caminhos que lá se abriram: Victor Hugo como pintor, Rachmaninov, música quase pimba, temas românticos, António Nobre, a "Révolucionaire" de Chopin acompanhada por um texto tão bom como a música, e muitíssimo mais.

Passo a vida a pensar isto, e é sempre - e cada vez mais - actual:
"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.”

Hoje a palavra é Saramago, amanhã não sabemos.

Só sei que precisava de meter todos os dias uma semana de férias, para saborear tudo e aprender muito com eles. :)

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Pequena amostra do trabalho dos estimados colegas:


"VICTOR HUGO PINTOR
Todos conhecemos a importância de Victor Hugo como um dos mais importantes autores e teóricos do #ROMANTISMO.
Já a sua obra como pintor é menos conhecida e, no entanto, muito original."





" #Romantismo|
E não me vou embora sem vos deixar aqui a minha peça favorita de Chopin, chama-se Révolucionaire, pois claro e, é fatal, traz-me lágrimas aos olhos.
É preciso lembrar que a Polónia é um país desde sempre rasgado entre os Impérios europeus e no fim do sec. XIX foi sujeita a três partilhas entre Rússia, Prússia e Áustria, que condenaram o país a desaparecer do mapa e o seu território a ser dividido.
Em 1807, ( parece que graças a Maria Walewska) Napoleão restabeleceu um Estado polaco, o Ducado de Varsóvia, mas em 1815, após as guerras napoleónicas, o Congresso de Viena tornou a partilhar o país. A porção oriental coube ao tzar russo, e era regida por uma constituição liberal. Entretanto, os tzares logo trataram de restringir as liberdades polacas e a Rússia terminou por anexar de facto o país.
Chopin como tantos intelectuais da sua época admirava Napoleão. E esta peça de 1831 ainda remete para o 'libertador' da Polónia.
Eu ouço-a sempre como um diálogo entre duas pessoas que se amam, ou um diálogo dentro de si próprio...em que o refrão é: tenho de ir, tenho de ir.
Ouçam são 2 minutos fabulosos."




"(...) que não falte o clímax do #romantismo, a cena de todos os arrepios. Com o bónus de podermos ficar a olhar para a cara da Ingrid Bergman enquanto o tempo passa."




"Der Wanderer über dem Nebelmeer (O caminhante sobre o mar de névoa), de Caspar David Friedrich, pintura que se diz encarnar a essência dos princípios da estética do #romantismo da paisagem: uma figura solitária contempla uma imponente paisagem alpina em cima de um pico rochoso, descrição a que hoje se acrescentaria: "empunhando um dispositivo que permite fixar o momento".
Mudam-se os tempos, mudam-se as estéticas, mas nem por isso as vontades mais profundas."





"
#Romantismo, além do sentido próprio no domínio da arte, é aquela ideia que conduz a esse estado nebuloso e açucarado em que homens e mulheres se permitem os maiores erros :-)
Um grande filme, da época em que os grandes filmes eram todos filmes românticos, foi o Breve encontro, ou "Brief encounter", como dizem os americanos... Com Trevor Howard e Celia Johnson, foi realizado por David Lean a partir de uma peça de Noel Coward. O filme tem tudo para ser uma xaropada movediça que se cola aos pés e aos dedos, e do qual não é possível escapar... Um amor impossível e Rachmaninoff do princípio ao fim...
No entanto, é salvo pela subtileza de David Lean. Subtileza e inteligência podem salvar até o mais romântico dos filmes... ;-)
Teve Óscar para melhor realização, melhor atriz, e melhor argumento adaptado. Viria ainda a ganhar o Grande Prémio em Cannes. A fotografia foi de Robert Krasker, que vai mais tarde ganhar um Óscar com o Terceiro Homem.
Houve dois remakes, que me lembre, desta história. Mas sem o David Lean..."



"quem me conhece sabe bem da minha paixão por esta música absolutamente deslumbrante.
isto é #romantismo puro e duro"




"Com #romantismo, não há nada a fazer: lie back and enjoy!
Temos banda sonora assegurada para dias a fio. Pela minha parte, gosto de tudo; mas do que eu gosto mesmo-mesmo, é do excesso, ou da sua encenação: tão encenação que deixa de doer, é puro deleite na dor-que-se-finge-ter.
Entre as prendas mais bonitas e comoventes que já tive na vida, conta-se uma noite de "canções de dor de corno", que um grupo de alunas e alunos brasileiros organizou para mim, aqui há uns dois anos. Só parámos de cantar de madrugada, quando a vizinhança ameaçou com a polícia (e isto na Alta de Coimbra, o que não é fácil 😄)
Ora digam lá se estes 3 minutos não são imbatíveis em deleite!"




16 novembro 2017

"contra a doença do politicamente correcto" (3)

Retomo (pela antepenúltima vez, prometo) o exemplo do  artigo de Bárbara Reis no Público, com o título "contra a doença do politicamente correcto", no qual se suja propositada ou inadvertidamente a água da banheira para poder deitar fora tudo o que está dentro, fechando os olhos com muita força para não ver o bebé que também lá estava.

Este post é sobre o fenómeno de fechar os olhos com muita força.

O artigo começa assim: Este Verão, engasguei-me a rir com o alerta da Unidade para a Igualdade e a Diversidade da Universidade de Oxford, que começou por dizer ao staff que não olhar os alunos olhos nos olhos podia ser racismo e, a seguir, anulou o aviso por se ter esquecido de que as pessoas com autismo não conseguem olhar olhos nos olhos e que seriam, portanto, discriminadas.


Pergunto-me como é possível escrever um texto contra o politicamente correcto que começa por referir que em 2017 foi necessário avisar o staff de uma universidade inglesa que se deve olhar todos os alunos nos olhos, independentemente da cor da sua pele. Pergunto-me como é possível uma pessoa "engasgar-se a rir" perante estes sinais de racismo.

O texto continua assim:

Caminhamos para uma sociedade que aceita e promove a censura e que, entretida a inventariar “microagressões” (...)

Um professor ou um funcionário de uma universidade que não olha um determinado aluno nos olhos devido à cor da sua pele é uma micro agressão. "Apenas" uma das milhentas humilhações a que algumas pessoas são sistematicamente sujeitas durante toda a sua vida, do parque infantil ao lar de terceira idade, perpetradas por uma maioria autocentrada que nem sequer se dá conta do mal que lhes faz. E Bárbara Reis entende que chamar a atenção para esses comportamentos é passar ao lado do que é realmente importante. 

A newsletter da universidade de Oxford dava outros exemplos de micro agressões, tais como perguntar a uma pessoa de onde é que ela vem. Não sei como é em Portugal, mas na Alemanha é extremamente comum: se uma pessoa tem a pele ligeiramente mais escura que o considerado normal no país, a primeira pergunta que lhe fazem é de onde vem, ou se entende alemão. Uma pergunta que não tem más intenções, mas faz muito mal a quem a ouve, porque lhe confirma e repete à exaustão que basta uma pequena diferença na cor da pele para todos à sua volta partirem do princípio de que é um elemento estranho a essa sociedade. Aliás, a própria formulação "cor de pele diferente do normal" aponta já para a condição de "anormalidade" na vida da pessoa.

É preciso ter muita vontade de não ver para considerar que isto são detalhes sem importância. E é preciso uma boa dose de cinismo para chamar "geração snowflake" a quem quer questionar e desinstalar comportamentos enraizados que provocam sofrimento às pessoas dos grupos minoritários.

Em contrapartida, não custa muito repensar os hábitos e mecanizar outros comportamentos: olhar para todas as pessoas nos olhos (excepto se forem autistas), dirigir-se a elas na língua do país onde estão (elas avisarão, se não entenderem), evitar a pergunta sobre a sua origem (a não ser que seja realmente óbvio que se trata de um estrangeiro), evitar usar com sentido depreciativo palavras associadas a minorias (frases como "és mesmo judeu!", "não sejas maricas!", "isto tem classe, não é para pretos", "pareces atrasado mental", entre outras, podem perfeitamente ser trocadas por "és mesmo sovina", "não sejas medroso", etc.).

Não custa muito. Mas - como no artigo do Público que tenho estado a referir - há quem prefira pegar em exemplos muito mal contados para ridicularizar e rejeitar o enorme esforço em curso para que a sociedade tome consciência do que há discriminatório nos seus hábitos.


O que é que move estas pessoas, afinal? Porque será que se sentem ameaçadas na sua liberdade quando lhes chamam a atenção para o facto de provocarem sofrimento a outros? Porque é que temem o esforço de tratar as minorias com o mesmo respeito que é devido a todos os seres humanos? 

E porque é que os privilegiados reclamam para si o direito de dizer o que lhes apetece, mas depois se armam em vítimas se são confrontados com o que disseram e com a carga de agressão do que disseram? Como é possível chamarem "snowflakes" às pessoas que acusam a ofensa, e ao mesmo tempo não quererem ser ofendidos pela crítica que lhes é dirigida?
Quem é o "snowflake", afinal?

Mais perguntas: o que leva pessoas que pertencem à maioria, e que por isso mesmo têm a vida mais facilitada, a fazer o discurso da auto vitimização "ai, que maçada, já não se pode dizer nada porque  está-se sempre a ofender alguém"? O que é que têm de tão importante para dizer, que tem realmente de ser dito, mesmo que faça sofrer pessoas com outra cor de pele, ou com deficiência, ou de determinada etnia, ou de determinada orientação sexual?


Nada disto faz sentido. Mas se olharmos por outra perspectiva, as peças começam a encaixar:

Sabemos que a extrema-direita dos EUA criou toda uma retórica no espaço público, alimentada também pelas fake news, que reforça a ideia de que as minorias estão a conquistar o "espaço vital" (usei a expressão propositadamente) da maioria. Sabemos que a Rússia inundou as redes sociais americanas com mensagens combativas tanto para a extrema-direita como para a esquerda e os grupos de luta pelos direitos civis, com o objectivo de polarizar e desestabilizar ainda mais aquela sociedade (podem ver aqui alguns dos posts russos lançados nas redes sociais dos EUA para influenciar as eleições presidenciais de 2016).

É certo que o "politicamente correcto" muitas vezes cai em exageros que não ajudam à sua causa. Mas fechar com toda a força os olhos para não ver a justeza dessa causa, e abri-los para ver apenas os exageros (e as fake news que deturpam os factos para melhor servir o discurso extremista) é fazer o jogo de quem está a orquestrar uma campanha para destruir a paz social e atacar a Democracia.

No artigo de Bárbara Reis, o mais assustador é saber que uma antiga directora de um dos diários mais importantes de Portugal se deixou apanhar na armadilha das fake news ao serviço de um discurso que recusa reconhecer os problemas quotidianos ligados à condição das minorias. E, se querem saber tudo, também é assustador que eu tenha escrito ao director do jornal, alertando-o para o facto de no Público estarem a passar fake news como se fossem mesmo factos, e ele nem se tenha dado ao trabalho de me responder, quanto mais ao de fazer uma adenda ao texto da Bárbara Reis, que - a esta data - já foi partilhado 4179 vezes.

Tenho a certeza que a Bárbara Reis não fez por mal. Mas um jornal como o Público, se não quer passar a fazer o jogo do Breitbart News, tem de se esforçar mais para fazer bem.

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Adenda, para os mais interessados neste tema:

Political correctness: how the right invented a phantom enemy

15 novembro 2017

o que conta é a intenção



Uma pessoa põe-se a ver este vídeo de um cardeal a ser vestido por uma multidão de criados em plena igreja, ao som de música de órgão, e pergunta-se quanto tempo é que demorava a vestir a rainha Maria Antonieta, e como seria a música que tocavam enquanto lhe iam pondo em cima do corpinho um e outro e mais outro atavio, e se o pessoal da corte também estaria impacientemente à espera do "Ite, missa est".

Uma pessoa depois vê como o homem desfila pela igreja com os criados da corte a segurar a cauda vermelha do seu manto, e pergunta-se porque é que o órgão não toca a marcha nupcial, e onde estará o outro noivo.

Uma pessoa repara finalmente na exuberância dos panos à volta do tronco, e entende finalmente:
é uma gueixa cristã!

Pensei logo em Maria Madalena, claro. E comovi-me com o simbolismo da globalização da mensagem cristã: um cardeal feito gueixa da Igreja de Jesus Cristo, treinado para animar e satisfazer os fiéis, e para lhes servir chazinho com todos os requintes.

O cardeal Burke se calhar não devia ler tanto a Hola, e alguém havia de lhe dizer que estas encenações assim agora é só nas revistas, mas pronto: o que conta é a intenção.

[No site onde encontrei isto apontam um detalhe inacreditável, nestes tempos de escândalo devido à pedofilia na Igreja: ao minuto 3:25 há um miúdo que ajoelha várias vezes à frente dele, e beija o barrete e o manto do marmanjão.]






"you're a chancellor, not a gif"

Agarrem-me, que parece que a Tracey Ullman vai ser o meu próximo vício... :)




"obesidade"

Dia de "obesidade" na Enciclopédia Ilustrada:


Então um grupo tão grande como o nosso, e não há aqui um único médico que nos venha explicar a
obesidade com científico saber?
O que se segue são provocações, a ver se os colegas da área da Medicina vêm cá dar um ar da sua graça.

Fui morar para os EUA na altura em que ainda comia tudo o que me apetecia e não acrescentava nem um grama ao peso. O que contribuiu para ficar ainda mais impressionada com a obesidade daquele povo. Pensei que seria problema da comida deles, mas eu também a comia e não engordava. Até que me explicaram que parte dos problemas de obesidade podia ser resultado de questões genéticas. Alguns povos indígenas tinham tanta dificuldade em encontrar alimento em quantidade suficiente, que o corpo se habituou a aproveitar muito bem cada caloria que conseguia ganhar. Quando começou a haver abundância de alimentos, o corpo não conseguiu adaptar-se ao novo registo, e continuou a armazenar o máximo possível, de modo a ter reservas para a próxima vaga de fome.
Pareceu-me uma teoria razoável. 
Anos depois li um artigo sobre uma senhora que tinha uma diarreia que nunca mais acabava, e a quem fizeram um transplante de fezes de uma pessoa saudável, para restabelecer a sua flora intestinal. A pessoa curou-se da diarreia, mas começou a engordar inexplicavelmente. Descobriram depois que a tal pessoa saudável também era obesa, e que nas fezes transplantadas terão também ido as bactérias que causam desequilíbrios no metabolismo e levam ao desenvolvimento da obesidade. 
Por essa altura já eu ia a caminho dos tais dez quilos mais do que sempre tinha tido, e fez-se-me luz: provavelmente as culpadas são as tais bactérias, que eu terei apanhado numa casa de banho pública de uma reserva indígena qualquer!
Moral da história: nas casas de banho públicas, não se sentem nunca nas sanitas! Podem engordar.

[agora pergunto-me quantos ;)  ;)  ;)  tenho de largar aqui para perceberem que estou a brincar]

"panteão"

No dia em que a palavra mágica da Enciclopédia Ilustrada era "panteão", um dos enciclopedistas escreveu este texto (a gente lá na Enciclopédia rimo-nos muito):

Ali estavam no #panteão postos: Garrett e Junqueiro, e o João de Deus... O Sidónio presidente quase rei, e o institucional golpista Óscar, jamais Acúrsio, Carmona, uns antes dos que vieram depois, e outros depois dos que vieram antes, mas todos sortidos... Arriaga e Teófilo, sucedendo-se sucessivamente sem cessar, até o mundo se acabar. O Delgado Marechal que estava nos Prazeres, já não estava nos prazeres... O literário, presumível 3º atirador, Aquilino, como uma águia, agora cega. E os últimos inquilinos, Amália, Sophia, e da Silva Ferreira, Eusébio, o amado do povo, por todos invejado... Ali estavam, postos, a beber o seu cházinho na sala dos fundos, quando o Mestre Aquilino assim diz:
"O pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos"... "A tudo se habitua o homem, a todo o estado se afaz", logo diz, conciliador, João Leitão da Silva, o Garrett... "Mas ó Aquilino, isto não é vinho, pá! É chá!!!" - chuta Eusébio... Sophia, olímpica e grega, avança na sua elegante postura vertical, e apesar de estar deitada, acrescenta: "realmente, que bruto, só quero nos teus quartos forrados de luar, onde nenhum dos meus gestos faz barulho, voltar." Junqueiro, sacudindo o clerical pó do templo, vocifera: "Ó de Breyner, e que tal se fosses fazer poesia com métrica ali para o teu caixão, e mais o dicionário de rimas do Teófilo?"...
Fez-se um silêncio sepulcral...
O General, tomou as dores da dama, e exclamou: "você, evidentemente está demitido!" - Mas "demitido de quê?" - interrogava-se João de Deus, que por ali se distraía a brincar com umas letrinhas de plástico... UVA, PUA... "ó que interessante"...
Entretanto, Óscar Carmona e Sidónio Pais, movidos por um estranho e síncrono mal-estar, saíram discretamente, e foram cada um para seu caixotinho, conspirar contra o outro. Teófilo e Arriaga, saltam ambos das cadeiras deitadas e dizem ao mesmo tempo: "Viva a República!!!" Para logo caírem numa dupla e intrigante letargia...
Só Dona Amália, com a voz embargada, e pedindo um pouco de mel "se faz favor, que tenho a voz arruinada, desde que aqui estou" - Só ela, tem um momento de lucidez... "Isto faz aqui falta amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho, a fumegar na tijela..." - "Telefonem lá para a DGPC, por amor da Santa..."

14 novembro 2017

conseguir não ver o que se nos mete pelos olhos adentro


1. A propósito da notícia do DN sobre a onda de denúncias de abuso sexual em Hollywood, um leitor escreveu: "Elas prostituíram-se para subir na carreira e ganhar fortunas e agora que têm a carreira feita é que têm a pouco , - ou nenhuma... -, vergonha de se vir queixar do que elas próprias pretendiam?"

Quem nunca ouviu a alusão sobre determinada mulher estar a subir na carreira em posição horizontal?
É uma acusação corrente. Quem assim fala, aceita e afirma implicitamente as regras do jogo numa sociedade dominada por homens: às mulheres não basta competência e talento - se querem ir longe, têm de aceitar fazer o jogo dos predadores sexuais que têm poder.
Quem ouve, e nada diz, ajuda a consolidar a ideia de que são essas as regras normais do jogo.
Muito haveria para dizer sobre uma sociedade que, por um lado, aceita como normal que as mulheres "façam carreira em posição horizontal" e que sem esse tipo de "concessões" lhes seja muito difícil fazer carreira, e ao mesmo tempo as acusa - como este comentador - de fazer carreira segundo as regras consideradas normais. Mas isso seria tema para um livro, muito mais que um pequeno post.


2. Os abusos de Weinstein eram de tal modo do conhecimento público que até foram objecto de piada numa cerimónia dos Óscares. E as gargalhadas do público não deixam margem para dúvidas: o pessoal sabia que para fazer carreira em Hollywood era preciso fazer "concessões" a Weinstein.




3. Um dos momentos mais sérios do filme "A Rainha de Espanha" (2017), de Trueba, é a relação de poder entre um dos actores mais importantes do elenco e um actor que sabe que a sua carreira acaba no momento em que oferecer resistência. Mesmo que fosse só por esses poucos minutos, já valia a pena ver o filme.
Porque é que meteram essa cena no filme? Narrativa cinematográfica, ou denúncia urgente?




E porque é que nós, que rimos nos Óscares e ficámos chocados e pensativos neste filme, não fomos capazes de dar o passo seguinte, o de falar abertamente sobre isto que vemos mas não queremos ver, isto que se alimenta do nosso silêncio e das nossas gargalhadas? E porque é que há tantos a chamar ao fenómeno #metoo um caso de histeria, exagero de bagatelas, auto vitimização?

Esta nossa cegueira é um caso sério.


13 novembro 2017

unicórnios na prisão da Stasi

No sábado passado voltei à prisão da Stasi em Hohenschönhausen, aqui em Berlim. Desta vez a visita foi conduzida por Karl-Heinz-Richter, também antigo prisioneiro político. Ao contrário da primeira que lá fiz, na qual o antigo prisioneiro nos falava sobretudo da história daquele centro prisional, da organização e dos métodos da Stasi, o nosso guia desta vez usou o cenário da prisão para nos contar a sua história. E que história!

Cito, na primeira pessoa, de memória:

Fui preso quando tinha 17 anos. O regime tinha a possibilidade de declarar que um menor em circunstâncias determinadas podia ser equiparado a um adulto, e deram-me tratamento prisional de adulto. Pior ainda: o Mielke gostava muito de mim, e eu tive azar - como quase sempre quando o amor não é retribuído.

Tinha um grupo de amigos que queria era fazer música com instrumentos de sopro, nada de cançõezinhas da Juventude Socialista. Sempre que nos vinham chatear para nos registarmos nas organizações da juventude, nós dizíamos que éramos cristãos. A vida ia correndo bem, mas às tantas eles começaram mesmo a apertar connosco. Alguns dos meus melhores amigos tentaram fugir para a Alemanha ocidental, e foram mortos. Enchi-me de raiva, e prometi aos outros: vou levar-vos todos para o outro lado. Descobri um sítio onde nos podíamos esconder na ponte da estação da Friedrichstrasse, para saltar para o comboio entre Moscovo e Paris. Todas as noites fugiam dois. Até ao dia em que tentei fugir eu próprio e as coisas correram mal. Tive de escolher entre arriscar-me a ser morto pela Stasi, ou saltar de uma altura de 7 metros para betão. Saltei. Parti as duas pernas e um braço, mas ainda consegui chegar a casa, a 3 km dali. A Stasi foi-me lá buscar uma semana depois - alguém me tinha denunciado. Levaram-me partido como estava para a prisão. O Mielke disse que eu era prisioneiro pessoal dele, e deu ordens para que não tivesse tratamento médico. Enfiaram-me numa solitária minúscula, sem luz do dia, sem água para me lavar, apenas com um balde a servir de sanita. Sabem o que acontece a quem não se lava? Fica cheio de comichão, começa a coçar, e acaba com a pele em carne viva. Tudo infectado. Um guarda disse-me para tratar as feridas com urina, e era o que eu fazia. Mijava para a mão, esfregava na ferida. Imaginam o cheiro que eu largava?
E depois, a comida. Pão húmido, e papas de cevada. Ainda agora fujo como tresloucado de sítios onde houver cheiro de papas de cevada. Na cave onde estava havia 300 presos a comer o mesmo. E os peidos que aquilo provocava? Vivíamos rodeados de um fedor imundo.
E ali estava eu, cheio de dores. Pedi analgésicos, uma vez, duas vezes, três vezes. Não me deram. Não voltei a pedir. Aprendi a meditar para tentar abstrair da dor. Quando me deixaram sair, para ser tratado, estive 18 meses num hospital. Como tinha os ossos todos tortos, tiveram de me operar 15 vezes para os partir e voltar a soldar na posição correcta.

Dizem que 90% das pessoas que passaram por esta prisão eram inocentes. Mas foram de tal modo torturadas, que 95% delas assinaram as confissões que lhes exigiam. Eu não assinei. Não é por ser herói - não há heróis nas câmaras de tortura. Simplesmente, quando lá entrei disseram-me que me iam matar. E eu pensei que enquanto não assinasse, eles não me matavam. Repetiam muitas vezes que me iam matar, e uma vez chateei-me e respondi-lhes: "então matem! Só me podem matar uma vez. Depois disso, só vos resta fazer violação de um morto". Ui, foram aos arames!

Eu tinha um problema: era berlinense, e a maior parte dos agentes era da Saxónia. Saxões! Onde é que já se viu um rapaz berlinense gostar dos saxões? Eles davam-me ordens no seu dialecto, e eu não obedecia. "És surdo, ou quê?", berravam eles. E eu: "não vos entendo. Vejam lá se conseguem falar Hochdeutsch." [E ria-se. Ele, que falava em dialecto cerrado de Berlim, a mandar os soldados falar a norma culta...]

[Entretanto tínhamos chegado à garagem onde entrava a carrinha com cinco compartimentos minúsculos para prisioneiros e lugar para um guarda. Ele pôs-se em frente à porta que dava para o corredor do edifício, e continuou: ]

Passaram por aqui milhares de prisioneiros. Imaginem o medo de cada um dos que passava por esta porta! As mulheres, estranhamente, eram mais aguerridas. Mais corajosas. O que elas arriscavam! Ao fim de algum tempo correu a notícia de que havia um rapaz de 17 anos com os ossos todos partidos e sem medicamentos numa cela. Algumas, que trabalhavam na cozinha, passavam-me por baixo da porta folhas de papel dobradas com um bocadinho de sal e de pimenta dentro, para melhorar o sabor das minhas papas de cevada. Quando me levavam para o interrogatório eu tinha de levar o papel comigo, porque na minha ausência a cela era revistada e se apanhassem aquilo as mulheres iam pagar bem caro.

O primeiro interrogatório demorou 25 horas. Eles queriam a todo o custo saber por onde é que os meus amigos fugiam. Eu não podia dizer, porque ainda havia dois que queriam fugir. Tinha de ganhar tempo.

[Continuámos a andar. Mostrou-nos o duche, numa parte da prisão construída na época em que a RDA tentou ser reconhecida internacionalmente, e para isso melhorou as condições dos prisioneiros.]

Uma vez por semana podíamos tomar um duche, mas era de água fria. No inverno era terrível. E ali estava eu, com a mão partida a tentar agarrar o sabonete, e o sabonete a escorregar. Do lado de lá das grades, os guardas assistiam aos meus esforços e riam-se. Enchi-me de fúria, agarrei no sabonete com a mão que estava boa e atirei-o com toda a força na direcção dos homens. Acertou em cheio na testa de um deles, num instante transformou-se num unicórnio. Hehehe. Queriam vir-me dar uma tareia, e eu ali nu a desafiá-los: venham, venham!
O meu pai era bóxer, e eu também me sabia defender. Não vieram.

O meu processo tinha 3500 páginas. Pedi para fotocopiarem tudo, levei para casa. Ao ler o que lá escreveram - e escreveram tudo - fiquei pasmado com a minha inconsciência. Como era possível provocá-los daquela maneira? Mas era a única maneira de não me ir abaixo. Isso, e inventar histórias no silêncio da cela.

Às vezes conversávamos com os outros prisioneiros. Batíamos na parede, 1 toque para A, 2 para B, etc. Demorava muito tempo - mas nós tínhamos todo o tempo do mundo.
Durante muito tempo conversei com a prisioneira do lado. Monika. Só muito depois descobri que a Monika era um homem, um agente da Stasi. Passei semanas da minha vida a contar fantasias sexuais a um agente da Stasi!

A Stasi tinha uma rede enorme de agentes: 91.000 para a população da RDA. Compare-se com a Gestapo, que só tinha 7.000 para todo o Deutsches Reich.

[Fui verificar: perto do final da guerra, a Gestapo tinha 31.000 homens. A Stasi tinha uma dimensão inacreditável: 1 agente para 180 cidadãos. A KGB era 1 para 595.]

Acabei por sair da prisão, casei, tive uma filha. Quando tudo se tornou ainda mais insuportável, fiz o pedido para poder abandonar o país. Foi concedido, mas antes o Mielke ainda me deu um presente: meteu a minha mulher na cadeia, e levou a minha filha de cinco anos para ser adoptada por um casal comunista. Nunca mais a vi. A minha mulher não sabia de nada. Eu ia visitá-la, e não lhe dizia nada. Quando a libertaram, e nos concederam licença para irmos morar no Ocidente, ela perguntou pela menina. Disse-lhe a verdade, e ela foi-se abaixo. Contou-me então que tinha sido violada na prisão. Desde então, está a ser acompanhada por psiquiatras. Nunca mais recuperou.

Fomos para Berlim Ocidental. Arranjei um passaporte falso, e ainda fui à RDA buscar mais vinte pessoas. Intelectuais. Queria vingar-me do regime comunista, fiz o que pude para lhes roubar a elite.

Mas um dia vieram atrás de mim. Queriam raptar-me, e levar-me de novo para a RDA. Soube defender-me (andava sempre armado). Mas a polícia ocidental disse-me que não estava em condições de me proteger, caso a Stasi tivesse mesmo decidido raptar-me. Sugeriram-me ir para países distantes. Fui para a Nigéria, na altura da guerra, e andei a fazer o que sei fazer melhor: levar pessoas para fora do país, para os Camarões. Só eu me arriscava a atravessar aqueles territórios ocupados por bandos inimigos.

Depois fui para a Arábia Sáudita e o Iémen. A Stasi não tinha filiais naqueles países.

Quando o muro caiu, a minha mulher disse que estava com saudades da Alemanha. Decidimos voltar. Em 1990. Um dia, entrei num supermercado, e senti um cheiro conhecido. Estava ali um homem que eu conhecia da prisão. Perguntei-lhe se tinha sido agente da Stasi. Olhem, para resumir, só vos digo que aquele encontro me custou 6.500 marcos.

(...)

Os comunistas não sabem fazer contas. Se lhes dessem uma porção de deserto para gerir, haviam de conseguir chegar a uma situação de escassez de areia. O Karl Marx era um garanhão bêbedo. Li o Capital, não percebi nada. Deve tê-lo escrito quando estava bêbedo.

[A visita terminou. Fomos à loja, e comprámos um livro dele. Comecei a folheá-lo, e descobri que a filha não tinha sido levada para adopção forçada. Foi com os pais para Berlim Ocidental. Comecei a perguntar-me quanto do que ele contou seria verdade, quanto seria resultado de uma mistura entre a sua própria história e a de outros, quanto seria pura e simplesmente delírio.

Tenho vontade de ir mais vezes àquela prisão, e falar com muitos dos ex-prisioneiros. Mas talvez seja melhor ler também livros dos historiadores, para não me deixar ir em histórias de agentes da Stasi repentinamente transformados em unicórnios.]