25 setembro 2017

síntese dos programas dos partidos com assento no Parlamento alemão

No domingo das eleições, para ajudar os indecisos a escolher em que partido votar, o jornal Bild publicou online a síntese que traduzo a seguir. Aviso que se trata de uma tradução demasiado rápida, que não explica muitas das questões e pode até ter erros - mas não tenho tempo para mais, e penso que mesmo assim vale a pena ter uma ideia dos programas dos partidos com assento no Parlamento alemão. 


CDU/CSU
- Refugiados - gestão "inteligente", por meio de uma "lei de admissão para pessoas com formação profissional"; continuar a aceitar a entrada de refugiados (a CSU quer um limite de 200.000 refugiados por ano).
- Segurança interna/Polícia - Mais 15.000 polícias, mais controle por vídeo; mais cooperação entre as secretas e a polícia; treino antiterrorismo em conjunto para polícia e exército (CSU: pulseira electrónica para terroristas potenciais).
- Reforma - nada de novo, reforma aos 67 anos segundo o esquema tradicional, e um grupo de estudo para debater as perspectivas após 2030.
- Política de família - o abono de família (192 euros por criança/mês) deve ser aumentado 25 euros; isenção de impostos em função dos filhos deve subir até ao nível da isenção para adultos; direito a ter escola primária durante todo o dia [ou seja: criação de actividades nas escolas que permitam aos pais trabalhar a tempo inteiro]. 
- Impostos/Finanças - aliviar os impostos em 15 mil milhões de euros; sem qualquer subida de impostos; o imposto de solidariedade [imposto complementar criado para pagar a reunificação] vai ser desmontado por fases a partir de 2020; o rendimento ao qual se aplica a taxa de imposto máxima (42%) deve passar de 54.000 para 60.000 euros anuais.
- Trabalho/Política social - dias de trabalho flexíveis sem mudar o número de horas de trabalho semanais; direito a trabalhar a meio tempo por um período determinado; atrair empregos com futuro (digitalização, biotécnica, ambiente, saúde). Objectivo: pleno emprego em 2025.
- Educação/Escolas - mais lugares em infantários, direito a cuidados durante o dia inteiro por parte da escola primária; os liceus continuam independentes; mais possibilidades de passar de uma via de ensino para outra [via para ensino superior e via profissionalizante]; apoio a institutos de ensino superior que promovam a inovação digital. 
- Saúde - mantém-se o sistema de caixas públicas/seguros privados; fim das propinas para a formação na área da saúde; os filhos só são obrigados a pagar o lar de cuidados continuados dos pais a partir de um rendimento anual de 100.000 euros.
- Meio ambiente - defesa do clima; implementar as normas da UE sobre poluição nas cidades até 2020; saída do nuclear até 2023; a longo prazo, substituir carvão, petróleo e gás por energias menos nocivas ao ambiente.
- Europa - fortalecer o "motor de crescimento" da Europa; linha dura contra a Turquia e os que saem da UE, como a Grã-Bretanha; proteger melhor as fronteiras exteriores da Europa; melhor cooperação na protecção contra o terrorismo e na distribuição de refugiados.

SPD

- Refugiados - socorrer os refugiados que precisam de ajuda, atrair profissionais estrangeiros segundo as necessidades; os pedidos de asilo devem ser feitos antes da entrada na UE; as pessoas que pedem asilo devem ser distribuídas de forma justa na Europa.
- Segurança interna/Polícia - mais 15.000 polícias e mais controle por vídeo, como a CDU; maior coordenação entre os serviços da Federação e os dos Estados na luta contra terrorismo, criminalidade bancária e crimes na internet.
- Reforma - reforma aos 67 anos. Nível da reforma: pelo menos 48% do salário médio pessoal; Desconto para a reforma: nunca acima dos 22% (até 2030); os trabalhadores por conta própria também devem descontar para a reforma.
- Política de família - aumentar o abono de família e o rendimento livre de impostos para pessoas com filhos, tal como a CDU; um "salário de família" de 300 euros, até no máximo dois anos, para progenitores a trabalhar a tempo parcial; além disso: infantários gratuitos, escolas primárias com actividades durante todo o dia.
- Impostos/Finanças - bónus criança: reduzir ao total dos impostos 150 euros por filho/ano; imposto sobre o rendimento: 42% a partir de 60.000 euros anuais; novo máximo do imposto sobre o rendimento: 45% a partir de 76.200 euros/ano (ou 152.400 euros para pares).
- Trabalho/Política social - Salário mínimo sem excepções; proibição de contratos a prazo ("não ao contrato a prazo sem justificação"); salários iguais para empregados fixos e empregados temporários; subsídio de desemprego especial para quem expande a sua formação.
- Educação/Escolas - por fases: gratuidade, desde o infantário até ao fim do estudo universitário ou da formação técnica; Acabar com a proibição de cooperação (Federação/Estados/Comunas) de modo a alargar o investimento na Educação.
- Saúde - "seguro geral" (também para cuidados continuados) para todos (funcionários públicos, empregados, profissionais liberais); descontos iguais para empregados e empregadores; possibilidade de passar do seguro privado para o seguro público; pagamento de salário a pessoas que se dedicam a cuidar de familiares doentes ou idosos.
- Meio ambiente - melhorar a qualidade do ar nas cidades por meio do apoio a táxis e autocarros sem efeitos para o clima; até 2050 deixar de produzir energia com consequências para o efeito de estufa; reduzir drasticamente a produção de CO2 até 2020.
- Europa -combater as fugas aos impostos; "governo económico" comum para a Europa; união europeia de defesa; corpo de paz europeu; não à entrada da Turquia na UE.

Linke
- Refugiados - facilitar a entrada dos refugiados ("sociedade solidária de acolhimento"); concretamente: direito a trabalhar, cuidados de saúde e sociais para todos os que entram (e não apenas os perseguidos) o mais tardar ao fim de 3 meses.
- Segurança interna/Polícia - protecção contra o terrorismo só deve ser feita pela polícia; acabar com todas as secretas; crachat com o nome para todos os polícias; acabar com o acompanhamento policial de pequenos delitos (entrada ilegal no país, drogas, andar sem bilhete nos transportes públicos).
- Reforma - reforma aos 65 anos (ou aos 60 para quem trabalhou 40 anos); a reforma deve subir para 53% do rendimento; reforma mínima: 1050 euros/mês; todos - mesmo os funcionários públicos - devem fazer descontos para a caixa de reformas.
- Política de família - abono de família sobe para 328 euros; cada criança recebe um rendimento mínimo de segurança de 573 euros/mês (sujeito a impostos); as crianças têm direito a infantários e escolas gratuitos, a tempo inteiro, e com muita qualidade.
- Impostos/Finanças - rendimento anual até 12.600 euros livre de impostos; nova taxa máxima sobre o rendimento de 53% a partir de 260.000 euros. Os milionários pagam 5% da sua riqueza (o primeiro milhão é livre de impostos).
- Trabalho/Política social - salário mínimo sobe para 12 euros; os salários mais altos de uma empresa não podem ser superiores a 20 vezes o salário mais baixo da mesma empresa; combate aos contratos a prazo; direito a um horário de trabalho mínimo de 22 horas semanais.
- Educação/Escolas - Educação gratuita até ao fim do ensino universitário; cantinas gratuitas em todos os infantários e escolas; escolas unificadas em vez de concorrência; possibilidade de entrar no ensino universitário mesmo sem Abi (diploma do liceu, ramo mais exigente do ensino secundário); acabar com os trabalhos de casa, o numerus clausus e os testes de admissão.
- Saúde - seguro de saúde para todos; travar a privatização dos hospitais; acabar com os pagamentos suplementares; 100.000 novos postos de trabalho nos cuidados continuados; 14,5 euros é o salário mínimo nesta área; seguro de cuidados continuados para todos sem comparticipação do próprio.
- Meio ambiente - protecção drástica do clima: redução dos gases com efeito de estufa até 2050 para a medida mínima (5% relativamente aos valores de 1990); peso da energia ecológica na electricidade sobe para 70% até 2030, e para 100% até 2040.
- Europa -salários e direitos iguais em toda a Europa, em vez de dumping de salários; BCE empresta directamente aos Estados; reestruturação da dívida grega (reparações dos crimes dos nazis); acabar com o Frontex, abrir as fronteiras da Europa.

Verdes
- Refugiados - "caminhos seguros e legais" para chegar à Alemanha; melhorar os processos para reunir as famílias; rescisão do contrato com a Turquia; atrair profissionais estrangeiros com uma lei de imigração (sistema de pontos).
- Segurança interna/Polícia - "mais pessoal, bons equipamentos" para a polícia; contra o armazenamento de dados, o reconhecimento digital do rosto, as razias online, o exército nas questões internas, os agentes infiltrados das secretas; mais controle dos serviços secretos e dos terroristas potenciais. [sobre os agentes infiltrados: houve vários escândalos ligados a infiltrados na extrema-direita, desde serem os agentes secretos eles próprios chefes dos grupos de extrema-direita, até terem encoberto acções violentas daqueles - em suma: julgando que estava a espiar, o Estado andava a subsidiar esses grupos]
- Reforma - manter os 67 anos e o nível da reforma (48%); possibilidade de reduzir o horário de trabalho a partir dos 60 anos; a reforma estatal deve ser para todos (também para profissionais liberais, políticos, donos de pequenas empresas).
- Política de família - 12 mil milhões de euros mais para crianças e famílias; apoio aos pais que trabalham; substituição do abono de família e da isenção de impostos por "rendimento básico de criança" e "bónus de abono de família" (até 364 euros).
- Impostos/Finanças - aliviar o peso fiscal das pessoas com rendimentos baixos e médios, por meio do aumento do montante de rendimento isento de impostos; esta medida é contrabalançada pelo aumento da taxa máxima sobre rendimentos a partir de 100.000 euros anuais e também de um imposto patrimonial.
- Trabalho/Política social - acabar com os contratos de trabalho a prazo se não houver motivos importantes para essa delimitação; direito de passar de trabalho com horário reduzido a trabalho a tempo inteiro; salário igual para os trabalhadores temporários; aumento do salário mínimo; o salário mínimo deve ser definido conforme o ramo económico.
- Educação/Escolas - acabar com a proibição de cooperação entre os Estados e a Federação; preços dos infantários com tarifas sociais; unificação dos currículos escolares; apoio às escolas e ao acompanhamento dos alunos durante todo o dia, em particular nos bairros com problemas sociais.
- Saúde - acabar com as propinas nas formações na área da saúde; acabar com o pagamento suplementar de medicamentos; contribuições iguais para o empregado e o empregador; preços de serviços médicos iguais para as caixas estatais e os seguros privados; apoio a pessoas que têm emprego e prestam cuidados continuados a familiares.
- Meio ambiente - até 2030 apenas carros sem emissão de gases; saída da energia ganha à custa de carvão; 100% energia ecológica; "placa azul" para proibir a circulação; poupança de CO2 obrigatória até 2050 em todos os estados da UE: 95% em relação a 1990.
- Europa -"mais Europa" e "menos armamento"; uma UE ecológica, digital, desenhada com "fairness"; combater o desemprego, os acordos comerciais (CETA), a lavagem de dinheiro e o dumping de impostos.

FDP
- Refugiados - recusa de um limite para entrada de refugiados; escolher quem entra em função das necessidades do mercado de trabalho; o pedido de asilo deve ser feito antes de entrar no país; os interessados em asilo devem esperar em "hot spots"; os países da UE que não recebem refugiados devem comparticipar nos custos.
- Segurança interna/Polícia - mais polícias, e mais bem equipados; não aumentar o controlo por vídeo e o armazenamento de dados (inclusivamente dados de voos); terroristas potenciais devem ser mais observados e bem controlados.
- Reforma - idade da reforma flexível (entre os 60 e os 70, com o respectivo montante da reforma mais baixo ou mais alto); trabalhadores independentes também têm obrigação de contribuir para a reforma básica; alargamento do sistema de reforma com módulos privados e empresariais. 
- Política de família - mais educadores de infância, e mais bem pagos; aumento do valor da isenção de impostos por filhos; abono de família escalonado segundo os rendimentos da família; cheques para ensino; a par do casamento, deve haver uma "comunhão de responsabilidade" por exemplo para pessoas idosas.
- Impostos/Finanças - alívio de impostos no valor de 30 mil milhões de euros; fim do imposto de solidariedade até fins de 2019; redução dos impostos para todos os níveis de rendimento; manutenção do sistema fiscal especial para casais (inclusivamente casais homossexuais).
- Trabalho/Política social - o trabalho deve ser mais flexível, o trabalho temporário e os contratos a prazo não devem ser ainda mais limitados; o mini-job deve subir de 450 para 530,40 euros; contas-poupança-trabalho devem ser usadas para aumentar o poder concorrencial das empresas [é a possibilidade de os empregados poderem acumular horas - ou uma conta poupança de salário - para mais tarde gozarem longos períodos de férias com pagamento de salário].
- Educação/Escolas - digitalização da escola e do mundo do trabalho ("aprender toda a vida"): 1000 euros de suplemento técnico para cada aluno; cheques de educação para crianças/alunos, para pagarem o infantário ou a escola ("concorrência").
- Saúde - mudança livre dos seguros privados para os estatais, independentemente dos rendimentos; mais pessoas a trabalhar nos cuidados continuados; liberalização do envio por correio de medicamentos sujeitos a receita médica; os doentes devem ser informados do custo do seu tratamento. 
- Meio ambiente - travar a implantação de geradores eólicos; acabar com as subvenções da lei das energias renováveis ("subvenções intermináveis"); evitar atitudes voluntaristas de protecção do clima e mudança energética se não forem acompanhadas pelos outros países; objectivo: economicismo e segurança no fornecimento.
- Europa - caminhar para uma Federação ("Europa a várias velocidades"); assegurar as fronteiras exteriores da UE; reduzir a dimensão da Comissão Europeia; criação de uma Procuradoria Europeia e uma União de Defesa Europeia.

AfD
- Refugiados - fechar as fronteiras; acabar com as entradas e repatriamento rigoroso dos refugiados, restringir a saída de pessoas com boas capacidades profissionais; proibição de burka e minaretes; não conceder asilo a ninguém sem papéis de identificação; não conceder nacionalidade alemã a filhos de imigrantes.
- Segurança interna/Polícia - facilitar o acesso a armas; mais polícia; combater a criminalidade de estrangeiros; repatriamento rigoroso mesmo no caso de delitos menores; medidas específicas para muçulmanos ("terror islâmico"); tornar o serviço militar de novo obrigatório.
- Reforma - reforma sem cortes após 45 anos de trabalho; reformados não pagam contribuições sociais e podem ter rendimentos complementares sem limites; reforço da contagem do tempo dedicado a criar filhos para efeitos de reforma; poupar nas despesas de migração/integração para gastar em reformas.
- Política de família - a alegada "diminuição da nossa população tradicional" deve ser combatida com uma "política nacional de povoamento". Além disso: mais apoios às famílias e às crianças; créditos para início da vida de casal; adopção em vez de aborto. 
- Impostos/Finanças - redução do IVA de 19% para 12%; acabar com o imposto de heranças e evitar um imposto patrimonial; alargar à família o regime tributário especial para casais (incluir o número de filhos na divisão do rendimento).
- Trabalho/Política social - desempregados obrigados a fazer trabalhos cívicos (com pagamento); subsídio do desemprego deve considerar períodos de emprego mais longos; aumentar o valor patrimonial não deduzível no caso de recebimento de apoios da Segurança Social; máximo de 15% para número de trabalhadores temporários nas empresas. 
- Educação/Escolas - pagamento a quem fica em casa a cuidar dos filhos, igual ao dos infantários ou das amas; sistema escolar em vários ramos, conforme a competência dos alunos; acabar com aulas de religião muçulmana; fim do Bolonha.
- Saúde - apoiar mais o cuidado de idosos na família (equiparado à actividade profissional); os familiares de empregados turcos que vivam no estrangeiro não devem ser abrangidos pelo seguro de saúde destes [na Alemanha, o seguro de saúde de alguém que tem um emprego é extensivo ao cônjuge e aos filhos]; apoiar cuidados de saúde alternativos.
- Meio ambiente - a AfD duvida da responsabilidade humana nas alterações climáticas; quer acabar com a protecção do ar das cidades; quer manter a energia a partir do carvão; quer acabar com os apoios à energia eólica devido aos riscos para os pássaros e as pessoas (sombra e ruído).
- Europa - a AfD entende que a Europa é um projecto falhado; exige reformas e, caso não se verifiquem, a saída da UE; quer o fim do euro (regresso ao marco); além disso: fim das sanções contra a Rússia.

na noite das eleições


Assisti aos resultados das eleições na Representação de Baden-Württemberg (uma espécie de embaixada dessa Land aqui na capital da Federação). Cheguei pouco antes das seis da tarde, hora da abertura das urnas, e fiquei retida numa enorme fila de convidados. O Joachim já estava lá dentro, e telefonou-me a dizer os primeiros resultados. "Nem queiras saber a tragédia, o pessoal aqui dentro está todo com cara de enterro. 13% para a AfD!"

Comentei os resultados com as pessoas que esperavam na fila à minha volta. Desolação geral.

- Foi um erro ter dado tanto palco à AfD, disse uma senhora. Foi uma self-fulfilling prophecy.
- O que me deixa indignada - disse eu - foi terem deixado um partido destes ir a eleições.
- Bom, isso está na Constituição: se tiverem mais de 5% dos votos entram no Parlamento.
- Também está na Constituição - retorqui - que todas as pessoas são iguais. A AfD quer criar cidadãos de segunda classe, o que é anticonstitucional.
- Oh, isso é apenas para os refugiados...

Ali estava eu, no meio de pessoas cultas e bem vestidas, convidadas a dedo para uma recepção na Representação de Baden-Württemberg, e estavam-me a dizer que os refugiados podem ser tratados como pessoas de segunda classe - sem sequer se darem conta do que tinham dito. A conversa continuou a ser orientada por elevados valores democráticos:

- Penso que a partir do momento em que um partido mostra que não respeita valores constitucionais básicos, não deve poder concorrer às eleições - disse eu. Tanto uma AfD na Alemanha, como um Trump nos EUA. 
- Proibir?! Onde vamos parar?! A Democracia tem de saber gerir estes fenómenos, e mostrar que é suficientemente forte para os anular, mas de forma democrática. A AfD entrou no Parlamento, e agora vai mostrar ao que vem. Isso vai abrir os olhos aos seus eleitores, que nas próximas eleições já estarão avisados.
- Educação, educação!, disse outra senhora (a que tinha dito "isso é apenas para os refugiados"). Só se consegue fortalecer a Democracia educando e informando o povo.

Ainda considerei dar-me ao trabalho de a informar que a AfD tem propostas muito concretas para os imigrantes turcos (não "apenas para os refugiados"), e que me sinto pessoalmente ofendida e ameaçada sempre que ouço alguém da AfD falar de "miscigenação" e da "substituição da população", porque estão a falar dos meus filhos. Mas preferi desistir. Pareceu-me que aquelas pessoas tão bem postas e autoconfiantes não estavam em condições de se deixarem interpelar por uma estrangeira. Facto é que entre os eleitores da AfD se encontram também muitas pessoas com formação superior, e da classe média alta. E mesmo quem não vota AfD e tem um elevado nível de formação pode cair inadvertidamente nos esquemas ideológicos da extrema-direita.  

Pouco depois, sentados a uma mesa em frente junto à sala onde decorria a transmissão em directo da Representação para a televisão de Baden-Württemberg, o Joachim comentava com os vizinhos que era muito mais suportável assistir a este momento na companhia de tantas pessoas, em vez da solidão do sofá da nossa casa, e todos concordaram.

O público agitou-se novamente quando apareceram os gráficos das movimentações de uns partidos para os outros: um milhão da CDU para a AfD, caramba! E uma corrida em massa dos absentistas às urnas para votar AfD, caramba!

Daqueles números, o que mais me surpreendeu e chocou foi o do êxito da AfD nos dois Estados mais ricos da Alemanha: Baviera e Baden-Württemberg. Entendo, até certo ponto, que a AfD conquiste mais votos na região da antiga RDA, devido ao ressentimento em relação ao processo de reunificação, à insegurança e à ausência de perspectivas, e ao despeito ou à inveja em relação ao que possa parecer um tratamento privilegiado dos refugiados, e devido também às sequelas provocadas por cinquenta anos de partido único. Mas os Estados mais ricos da Alemanha, com um nível de vida invejável, com segurança, com taxas de desemprego mínimas: contra o quê protestam eles? que lhes falta? 

A passagem de tantos votos do CSU (conservadores bávaros) para a AfD esclareceu-me sobre a deriva populista dos seus chefes nos últimos anos: estavam a tentar não perder eleitores para a AfD. As recusas de Angela Merkel em embarcar nessa deriva populista - que apontava os refugiados quase como um inimigo a combater - tiveram também o seu preço, expresso nos baixos resultados do seu partido, quase os mais baixos de sempre.

Na nossa mesa as opiniões eram unânimes: o deslocamento da CDU para a esquerda e do SPD para a direita fez-lhes perder eleitores. É preciso vir agora uma coligação Jamaica (CDU, Verdes e Liberais) para agitar as águas políticas e desinstalar a CDU do seu conforto e da sua dormência. O SPD tem de ficar fora do governo, para ser a maior força da oposição. E nem pensar em deixar que a AfD seja a maior força da oposição no Parlamento!

Foi muito aplaudida a representante do SPD que falou num momento histórico em que os partidos democráticos têm de compreender a gravidade da situação e ser capazes de se entenderem para travar o avanço da extrema-direita.

Assim seja.

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Na Representação havia uma exposição trabalhos de Patricia Waller. Reparei especialmente na avestruz de cabeça enfiada na areia, e na ovelha tosquiada. Vá-se lá saber porquê...


AfD

 (Poster da AfD: "O nosso país, / A nossa Heimat. / Tu, minha Alemanha.")

Para quem quer perceber melhor como é o partido que conquistou o terceiro lugar nas eleições de ontem na Alemanha, traduzo a seguir partes de um artigo de opinião do Spiegel online, de , que perguntava ontem aos eleitores que, para se verem livres da Angela Merkel, tencionavam votar AfD, se se identificam realmente com os valores desse partido. Os links do texto são para notícias em alemão.


Haverá com certeza motivos para votar AfD - mas são mesmo os seus motivos? Este teste oferece a resposta.

  • Acredita que a sua vida e a dos seus próximos vai melhorar se começarmos todos a sentir "orgulho pelos feitos dos soldados alemães nas duas guerras mundiais", como afirma Alexander Gauland? [informação complementar: durante várias décadas a sociedade alemã separou o exército das forças nazis, SS, SA e Gestapo. O exército era "limpo", os outros faziam o trabalho sujo. No início dos anos 90, uma exposição pôs a nu os crimes cometidos pelo exército. A exposição foi um duro golpe para a sociedade alemã, e foi extremamente criticada por sectores conservadores da sociedade.]
  • Ou será que acredita que a Polónia queria invadir a Alemanha em 1939, e que Hitler se limitou a antecipar-se ao inimigo? (Stefan Scheil)
  • Acredita, tal como por exemplo Wilhelm von Gottberg, que o Holocausto é tratado no nosso país como um "mito", "um dogma fora do alcance de uma investigação histórica independente"?
  • Deseja, tal como Björn Höcke, uma "viragem de 180 graus na política de Memória"?
  • Acredita, como von Gottberg e muitos dos seus colegas de partido, que neste país há um "culto com a culpa", e que pôr-lhe um fim melhoraria a sua vida e a dos seus próximos?
  • Em suma: também lhe parece que é tempo de deixar de lembrar o imenso massacre industrial cometido pelos alemães?
  • Quer ver no parlamento alemão um partido que, como diz Dubravko Mandic, candidato directo Tübingen, se distingue do NPD "sobretudo pela base de apoio, e não tanto pelos conteúdos"?
  • Alegra-se, tal como Mandic, com "o surgimento de uma rede de extrema-direita entre a AfD e o Movimento Identitário"?
  • Concorda com Petr Bystrom, candidato directo da AfD por Munique, que o chamado "Movimento Identitário" (organização vigiada pelo Verfassungsschutz - serviço de inteligência interno, porque lhe encontram "sinais de intenções contra a ordem democrática livre") é uma "organização fantástica"?
  • Parece-lhe bem que deputados do parlamento alemão tomem parte em manifestações deste "movimento", tal como o Norbert Teske, candidato por Bremen?
  • Parece-lhe que a sociedade alemã resolve o desafio da integração se assumir abertamente que pode tratar por "negro" as pessoas com pele escura (como propõe Thomas Seitz, candidato directo por Emmendingen-Lahr)? Pensa também que a melhor maneira de saudar pessoas de pele escura é atirar-lhes uma banana (Benjamin Nolte, candidato da Baviera - também conhecido como "Nolte-Banana")?
  • Acredita, à semelhança por exemplo do candidato da AfD Peter Boehringer, que tanto o governo alemão como a ONU são na realidade comandados por uma organização secreta chamada New World Order (o novo nome da conspiração judaica mundial)?
  • Acredita, tal como Boehringer e outros, que estes poderes obscuros pretendem "repovoar" a Alemanha?
  • E também que pretendem proceder à troca da população alemã com o apoio activo dos partidos estabelecidos no parlamento?
  • Teme, tal como Martin Hohmann, candidato da AfD em Hessen, uma "troca da população"?
  • Parece-lhe que há interesse em divulgar teorias como a de Marc Jongen, por vezes denominado "filósofo do partido", de que poderes obscuros querem criar uma "população mestiça" para enfraquecer a Alemanha?
  • Parece-lhe adequado chamar "parasita" a pessoas de origem estrangeira (Göbel)?
  • Parece-lhe que se devem encerrar todas as mesquitas da Alemanha (Nicolaus Fest, candidato por Berlim)?
  • Ou que o direito constitucional da liberdade religiosa não se aplica aos muçulmanos (Albrecht Glaser, candidato por Hessen)?
  • Gostaria de - tal como Maier, candidato da Saxónia, que muito provavelmente vai conseguir um lugar no parlamento - poder chamar "escumalha" aos muçulmanos?
  • Ou pura e simplesmente proibir o Islão em toda a Europa, como Nicolas Lehrke, o candidato da Baixa Saxónia?
Se respondeu sem hesitação "Sim" a várias destas questões, é com grande probabilidade um radical de direita com queda para teorias de conspiração paranóides. Neste caso, eu pessoalmente preferiria que não fosse votar. Mas se tem mesmo de votar, seja. Vote AfD - ao menos ficamos a saber quantas pessoas da sua laia existem neste país. Fazer de conta que essas pessoas não existem também não nos ajuda.

Se as questões acima lhe causam alguma repugnância, então peço-lhe que não vote AfD. Mesmo que se sinta zangado devido às injustiças sociais na Alemanha, não possa ver mais a Angela Merkel à sua frente, ou esteja muito insatisfeito com a política de refugiados do governo alemão. Há outras possibilidades de exprimir esta insatisfação, sem ser metendo por quatro anos no parlamento nacional racistas nacionalistas de direita com tendência para distorções da História e que mal disfarçam a sua simpatia pelos nazis. Dê o seu voto a outro partido, tem uma grande possibilidade de escolha.

24 setembro 2017

em dia de eleições na Alemanha

Já sabe quem vai ganhar estas eleições, só não se sabe por quanto.
A grande questão - melhor dizendo: a grande inquietação - é saber se a AfD vai ser a primeira força da Oposição. A AfD, para quem ainda não sabe, é o partido que capitaliza o ressentimento, o descontentamento, a insegurança e a xenofobia de uma parte da população alemã para passar uma agenda que vai beber aos valores nazis (nomeadamente medidas para aumentar o nascimento de alemães - não é a taxa de natalidade, é mesmo só bebés alemães que querem -, direitos diferentes para estrangeiros, militarização e paramilitarização da sociedade).

Em dia de eleições, o Spiegel tem no topo do site online um conjunto de questões para as pessoas que tencionam votar AfD verificarem se são realmente adeptas dos valores da AfD: "É mesmo isso que quer?"
E o Bild (mesmo o Bild!) tem uma síntese do programa dos partidos. Não tenho tempo de traduzir, mas deixo aqui o link: "Para os que ainda estão indecisos / Leia o programa dos partidos em menos de 8 minutos"


22 setembro 2017

nenhum lobo é tão terrível como...

 
Legenda da foto:
Placa: Nesta região há lobos em busca de comida. Os cães devem ter a trela curta e as crianças devem ser vigiadas.
Alguém acrescentou: "Temo pela minha avó. / Ass: Capuchinho Vermelho"

 
Wladimir Kaminer, a propósito das eleições de domingo na Alemanha (texto encontrado no facebook):
 
À minha volta há muita gente irritada por causa da AfD, um partido que procura alternativas para o humanismo e o bom senso. "Se esta gente chegar ao poder, para onde vamos emigrar?", queixavam-se ontem os amigos numa conversa à mesa.
Não estou tão pessimista. Todos os países europeus têm a sua quota-parte de palermas no Parlamento - porque é que a Alemanha devia ser uma excepção? É melhor tê-los sentados no plenário, que aos gritos nas ruas, a fazer uma bomba numa cave, ou a deitar fogo a um centro de refugiados. Não é preciso ter medo dos rapazes maus, continuamos em contacto. Há um ditado russo que diz: "nenhum lobo é tão terrível como o medo de ser comido por um lobo".

Li Dl Land



Ao abrir um vídeo no youtube apareceu-me uma publicidade do Lidl tão interessante que não consegui apagá-la ao fim dos 4 segundos obrigatórios. Fui procurar mais informação, e aqui deixo um pequeno apontamento (seguindo um artigo no Bento, a edição do Spiegel online para um segmento mais jovem) sobre a guerra de publicidade entre as cadeias Edeka e Lidl, cujo episódio mais recente é aquele spot.

Segundo o Bento, tudo começou com uma publicidade do Lidl, em que uma repórter entrevistava pessoas à porta do Lidl e descobria uma empregada do Edeka com o carrinho cheio:



Edeka respondeu com um filme feito discretamente dentro de uma loja Lidl, em que a mensagem é transmitida por palavras na roupa das pessoas, queixando-se que não há ninguém para atender, não há frutos exóticos, e portanto mais vale irem ao Edeka:



O Lidl respondeu no próprio dia, com um empregado a encher um carrinho de frutos exóticos para levar ao Edeka, onde "vendem a mesma qualidade pelo dobro do preço":



Agora o Lidl voltou ao ataque, desta vez com o filme Li Dl Land (dos autores de Lidl Miss Sunshine e de PS: Ich lidl dich) copiando o estilo de La La Land para contar a história da filha da família dos fundadores do Edeka, que se apaixonou por um empregado do Lidl. Incluem uma incursão por Matrix e The Notebook, e de caminho riem-se de dois outros spots do Lidl: o Eatkarus - que foi muito criticado, por ser fat shaming -, de um rapazinho que começa a fazer dieta para ser leve como os pássaros (lema: "come como aquele que queres ser" / Edeka / #comeassim), e outro, do ano passado, em que um velhinho faz de conta que morreu para conseguir juntar todos os filhos no Natal.





O filme Li Dl Land termina com a alusão a este último spot, o velhinho a dizer "de que outro modo vos podia ter juntado no Natal?" e um neto a responder "avô, tu vives aqui, nós vivemos todos aqui - vá, acalma-te".


Duvido que a empresa Edeka se acalme com este filme. Mas aqui nesta terra o pessoal ri-se muito.

21 setembro 2017

acabámos de encontrar milhões e milhões de marcos



O Joachim está neste momento a arrumar uma caixa de "diversos" que tem andado nas mudanças, de casa em casa, sem ser aberta.

Já encontrou milhões e milhões de marcos, o menu do almoço no dia do nosso casamento civil, um pin com estrela e foice e martelo comprado na URSS, a caderneta onde - depois de fazer 18 anos - escrevia as justificações das faltas para os professores assinarem (ia transcrever algumas, mas ele não deixa), e o recorte do jornal de quando ele e os amigos se encaixaram numa cabine telefónica para bater um record mundial.

Sabia da inflação galopante que se abateu sobre a Alemanha, mas ter um bocadinho de papel fino na mão onde se lê "50 milhões" é estranho. Lembrei-me de uma descrição de Erich Maria Remarque - quantos daqueles pedaços de papel seriam necessários para comprar meio quilo de pão?

E sabia daquela façanha da cabine telefónica. De facto, vi-a na televisão portuguesa - muitos anos antes de ter conhecido o Joachim. Bem se justificava aqui a abordagem clássica "tenho a sensação que já o vi algures..." e a resposta "terá sido na televisão?"
 

ah, e tal, os refugiados são todos pessoas horrorosas que não conhecem a nossa cultura e têm uma religião terrível que vai dar cabo da Europa...

Lailah, uma iraquiana de 16 anos que ia no metro berlinense (U6, para quem quer saber tudo) reparou que a velhinha cheia de sacos, que tinha estado ao seu lado, ao sair da carruagem se esquecera da mala. Pegou nela, descobriu que tinha 14.000 euros, foi para casa e entregou tudo à mãe. No dia seguinte foram ambas à polícia. A velhinha, de 78 anos, já tinha avisado a empresa do metro e a polícia, pelo que foi fácil encontrá-la, e verificar que não faltava nada.

Lailah vive há dois anos num albergue temporário para refugiados em Berlim com a mãe, um irmão mais velho e duas irmãs de 3 e 8 anos. Vinte e quatro metros quadrados para a família de cinco pessoas, sem cozinha. Lailah já fala muito bem alemão, e está num curso para ser assistente social. O pai ainda está no Iraque. O pedido de asilo para toda a família foi recusado, e estão agora à espera do resultado do recurso que apresentaram.

A lei alemã prevê a entrega obrigatória de um prémio a quem encontrar valores acima de 500 euros. No caso, Lailah teria direito a 215 euros, mas recusou aceitar o prémio. "Em momento algum pensei ficar com este dinheiro. A nossa religião não permite aceitar dinheiro que pertence a outras pessoas.", disse ela. E acrescentou: "Queríamos viver num apartamento, o que é muito melhor que ter dinheiro. Pode ser que agora alguém nos ajude a encontrar um."

(Nos sites alemães há imensas notícias sobre o caso - nomeadamente esta.)





o que é que diz uma loira quando vê uma casca de banana na rua?

Trump anunciou na sede das Nações Unidas que põe a possibilidade de "totally destroy" a Coreia do Norte.

Trump falou em destruição total. Das duas, uma: ou não sabe o que diz, não fará nunca o que ameaça, e não é para levar a sério, ou sabe perfeitamente o que está a dizer e está disposto a fazê-lo. Nesse caso, o que ele anunciou nas Nações Unidas foi algo muito parecido com a "Endlösung" de um país.

E nós a olhar.

Por estes dias penso no que aconteceu na Europa nos anos 30 e 40 do século passado, e na responsabilidade de quem leu "Mein Kampf", de quem viu o partido de Hitler a avançar pelo país, de quem assistiu à tomada do poder, de quem viu as manifestações de força e as perseguições políticas e étnicas - e não fez nada.

Nós também não fazemos.

O que é que podemos fazer?
O que é que os alemães de 1933 podiam fazer?

- O que é que diz uma loira quando vê uma casca de banana na rua?
- Oh, não! Lá vou eu escorregar outra vez.

Oh, não! Estaremos nós a escorregar outra vez?

(Ao menos, estes tempos terríveis têm uma pequena vantagem: aprendermos a ser mais humildes no julgamento dos outros, os que há cem anos viram a casca de banana na rua e não souberam evitar a queda.)


São Paulo, Rembrandt e a «cura gay»

Copio para este blogue um texto excelente do Frederico Lourenço (desculpem o pleonasmo), publicado no facebook.

Só queria acrescentar uma ideia para os cristãos: deixemos entrar a luz de Cristo. Não é a Igreja, não é a terrível História da Igreja, não é a tralha acumulada em 2000 anos de Igreja. É a essência da mensagem de Jesus Cristo.

(Escrevo isto, e fico a pensar num comunista que ouvi há dias, a dizer que a ideia de comunismo é boa, as pessoas é que não a souberam aplicar, e que devíamos tentar outra vez porque da próxima vez é que vai correr bem...)


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Frederico LourençoSão Paulo, Rembrandt e a «cura gay»



Se tivessem dito ao fervoroso adolescente católico que eu era nos anos 70, eu não teria acreditado. Se, nos anos 80, durante tantas conversas com amigos padres, nos tivessem dito - também não teríamos acreditado.

O que se passa com este século XXI, que antecipávamos esperançosamente como o triunfo do Iluminismo, como o século das Núpcias da Fé e da Razão? Porque voltámos de repente à Idade Média, neste ano em que celebramos os 500 anos da Reforma protestante, o evento que deu início à Idade Moderna?

No país da Ciência que levou o ser humano à Lua, senta-se hoje na Casa Branca um presidente apoiado por baptistas e pentecostais, eleito por 80% dos evangélicos americanos. Esta administração americana dá cobertura e apoio às versões mais retrógradas e obscurantistas do cristianismo: ao cristianismo dos bilionários (como Betsy de Vos), dos supremacistas brancos do Southern Baptist Convention. Já foi divulgado que, uma vez por semana, há uma aula de estudos bíblicos na Casa Branca, onde um pastor milionário ensina aos bilionários da administração Trump a ler a Bíblia sob o prisma da teologia da prosperidade, do criacionismo, da negação completa da Razão.

Ganha força, no século XXI, a superstição que o século XVIII (e ainda mais o século XIX) veio refutar: a de que a Bíblia nos dá a ler, sem erro, a palavra «inerrante» de Deus. Cada vez mais se produzem e distribuem Bíblias pelo mundo inteiro em que todos os avanços do estudo crítico-histórico da Bíblia são postos de lado. Voltamos, nalgumas Bíblias do século XXI (inclusive em português), a ler uma absurdeza já refutada em 1672 por John Marsham, de que o livro de Daniel foi escrito no século VI a.C. (e não, como concordam os estudiosos sérios, no século II).

Temos produzidas e distribuídas em massa edições da Bíblia que nunca dão a entender aos leitores que é impossível que São Paulo tenha escrito as 13 cartas que lhe são atribuídas no Novo Testamento: na melhor das hipóteses, terá escrito 7. E quantos católicos e protestantes sabem que é possível argumentar, como fez Bruno Bauer em 1852, que todas as cartas atribuídas a Paulo no Novo Testamento são falsificações escritas em nome de Paulo no século II, posição crítica retomada em 1995 por Hermann Detering e em 2012 por Robert Price (remeto para a Bibliografia do 2º volume da minha tradução do Novo Testamento)?

O estudo sério sobre a Bíblia que se faz nas universidades não-católicas e não-evangélicas está cada vez mais a ser apagado e afastado da consciência dos cristãos, substituído por um discurso de aterradora ignorância e de imposição de uma agenda política colada ao catolicismo na Polónia, colada ao protestantismo baptista nos EUA e colada ao protestantismo evangélico no Brasil.

A Bíblia prestou-se desde sempre a ser instrumento daquilo que o poder político e religioso lá quis projectar. A distopia teocrática por que alguns pugnam na Polónia, no Brasil e nos EUA é algo que temos de combater com os instrumentos da Razão, com o estudo da História, com o pensamento crítico. E temos de combater essa realidade distópica com o próprio estudo crítico-histórico da Bíblia. Informarmo-nos, hoje, sobre a Bíblia é verdadeiramente urgente.

Pois do mesmo modo como olhamos criticamente para o retrato fantasista de São Paulo pelo pintor seiscentista Jan Lievens (que pôs Paulo anacronicamente a escrever num livro cosido e encadernado, objecto que não existia em vida de Paulo), temos de olhar criticamente para o retrato fantasista que os movimentos políticos distópico-teocráticos nos querem impor dos textos que servem de base ao cristianismo.

Que sustentação bíblica pode haver para a «cura gay», se nós não sabemos quem escreveu, nem em que circunstâncias, nem com que intenção, os poucos versículos do Antigo Testamento (equivalentes a pouco mais de 30 palavras num universo de 600,000) que condenam a homossexualidade? Nem sabemos como foram colados os conjuntos de frases desgarradas que são tantas vezes as cartas atribuídas a Paulo?

Há um debate aceso nas grandes universidades do mundo (Harvard, Yale, etc.) sobre se as frases de Paulo podem ser interpretadas como conveio durante séculos que fossem explicadas. E continua o debate - o livro de Price de 2012 é prova disso - sobre quem escreveu as cartas atribuídas ao apóstolo.
Sabemos que o pintor neerlandês Jan Lievens fez tudo o que pôde para pintar no estilo de Rembrandt - e pode ter convencido, em tempos, algumas pessoas. Mas a História da Arte tem hoje métodos científicos que permitem distinguir Rembrandt dos falsários que pintaram de modo a se fazerem passar por ele.

Da mesma maneira, temos de dar ouvidos aos grandes estudos críticos sobre a Bíblia, à grande bibliografia produzida desde o século XIX, que nos distingue as autorias reais e imaginárias dos livros da Bíblia.

Não nos deixemos levar por esta onda neo-medieval. Não baseemos decisões sobre a vida de pessoas que vivem no século XXI, em democracias laicas cuja implantação foi um dos maiores triunfos da história da humanidade, num Livro sobre cujas autorias, cronologia e coerência interna não temos a mínima certeza.

Demos a Rembrandt o que é de Rembrandt - e a Paulo o que é de Paulo. Não voltemos, em 2017, à leitura obscurantista da Bíblia que se fazia até ao século XVII. Abramos a janela da Razão e deixemos entrar a luz.

imagem: São Paulo por Jan Lievens (século XVII)

on body and soul



Este filme está a chegar agora aos cinemas alemães.
Conselho de amiga: tentem não perder.
Foi o primeiro que vi na Berlinale deste ano, e bastaram alguns minutos para concluir que esta Berlinale já me tinha valido a pena.

(Aos amigos em Portugal: tentem conseguir que o filme seja mostrado aí.)

a luta continua

Está difícil, está difícil...

19 setembro 2017

ai! quem me acode?

Esta manhã abri uma pasta de chocolate Ritter (esta mesma, de 250 g e tudo) e desde então tenho-me estado a desgraçar em queda livre. Ou então é do calor, que está a evaporar o chocolate.

(Mas vá, podia ser pior, podia ser uma embalagem gigante de Mon Chéri, e eu chegar à hora do almoço alegrezinha e com um hálito de me envergonhar para sempre.)


campanha eleitoral na Alemanha - um vídeo de "die Partei"


"Não faças merda com a tua cruz!"


"Die Partei" ("o partido") é um não partido, surgido a partir da revista satírica Titanic, que usa as campanhas eleitorais para parodiar e criticar o processo democrático. Opta deliberadamente por temas populistas, afirmando que faz como os outros partidos: para ganhar votos, diz o que o eleitorado quer ouvir. E acrescenta: se isso ajudar a retirar votos à AfD, tanto melhor.
Fica (quase) sempre muito longe dos votos necessários para entrar nos parlamentos, mas vai agitando o ambiente, dando que rir a uma certa faixa etária, e dando que pensar a alguns.
O seu presidente, Martin Sonneborn, conseguiu ser eleito para o parlamento europeu. Não tenho a certeza que o parlamento europeu estivesse a precisar de um satírico no lugar de deputado...

Um dos vídeos que está a passar na actual campanha eleitoral lembra, a brincar, algo realmente grave: o risco de a abstenção dar muita mais força à AfD.



Tradução:

Olá, chamo-me Nico Semsrott, e este é o meu lugar.
Sou treinador de desmotivação, e por isso candidato-me pelo partido Die Partei. A Alemanha está a ser dominada por um grupo sobre o qual nenhum partido fala: os que não votam.
O parlamento actual tem este aspecto [primeiro gráfico, 0:20]
E este é o seu aspecto se contarmos com os absentistas [segundo gráfico, 0:23]
Se os absentistas tivessem representação no parlamento, teriam mais deputados que o CDU. Na Alemanha, há quase 18 milhões de pessoas que não vão votar. No entanto, desde a segunda guerra mundial perderam sempre a oportunidade de tomar lugar no parlamento. Um escândalo. Die Partei é o único partido que pode representar de forma fidedigna os interesses de quem não vota.
Caros absentistas: se vos é indiferente quem se senta no parlamento, não acham que era engraçado serem representados por alguém que não se interessa por aquele lugar?
[gráfico, 1:01] Quantos mais absentistas votarem em Die Partei, maior é a participação nas eleições, e por isso maior é a probabilidade de a AfD e o FDP não conseguirem entrar no parlamento. Com alguma sorte, até o SPD.
Se não conseguirmos alcançar este objectivo, demito-me. Nem que para isso tenha de me erguer.
--
Também pensei criar um movimento, mas sou contra o movimento.


campanha eleitoral na Alemanha - "Angela Merkel, a mãe da AfD"

No próximo domingo há eleições na Alemanha. Quando um dos temas mais importantes do momento é a hipótese de a AfD se tornar o partido mais importante da oposição, traduzo partes da coluna de Jakob Augstein no Spiegel:

Quando um dia se fizer um balanço sobre a era desta chanceler, do lado do "haver" vai constar que Angela Merkel é a mãe da AfD. Era ela quem estava ao leme quando os nazis entraram no parlamento federal alemão. Só por isso já merecia perder as eleições. Mas com Merkel é como com o FC Bayern München  - vota-se, e no fim é ela quem ocupa o cargo. A quem devemos dar o nosso voto, se queremos que a chanceler pague a factura? Ou: será que vale a pena ir votar?

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[O artigo online interrompe aqui para fazer esta publicidade, com links - traduzo também, porque é um bom exemplo do que o Spiegel está a fazer para conseguir financiar-se.]

Mais sobre este tema em Spiegel, caderno 38/2017



Votar de forma mais inteligente - um manual de instruções
- edição digital
- edição em papel
- apps
- assinatura

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Nazis. Palavra pesada. Será que estamos a banalizar os assassinos de judeus e os apologistas da guerra mundial do III Reich? Não. Jens Maier, da AfD, teme a "criação de povos mestiços" e quer acabar com o "culto da culpa" dos alemães. O seu camarada Wilhelm von Gottberg citou apreciativamente um neofascista italiano com as palavras: "a verdade dos judeus sobre o Holocausto está a receber protecção jurídica em cada vez mais Estados". E todos conhecem as afirmações de um dos candidatos principais da AfD, Alexander Gauland, sobre a deputada alemã de origem turca que deve ser "removida" para a Anatólia, e sobre termos o direito de nos orgulharmos por acções dos soldados alemães na segunda guerra mundial.

Sigmar Gabriel tinha razão quando há tempos dizia que muito em breve haverá pela primeira vez desde 1945 verdadeiros nazis a usar a tribuna do Reichstag.
Agora que a colheita castanha está à vista, vale a pena pensar em todos os jornaleiros que espalharam afincadamente o adubo que deu origem a este estrume:


["castanho" é uma palavra muito usada para designar os nazis, por ser essa a cor associada ao partido; esta de adubar para produzir estrume é uma liberdade criativa, necessária dada a impossibilidade de escrever "merda"]

- Thilo Sarrazin, obviamente, o padrinho da revolução da extrema-direita, que com as suas arriscadas estatísticas deu um rosto burguês ao ódio viscoso contra os muçulmanos.
- A revista Cicero, que publicou o "discurso zangado de um desapontado", no qual o realizador Oskar Roheler acusa Angela Merkel por já não ter "raízes no meu país". (...)
- Rüdiger Safranski, que simpaticamente mostra compreensão pela "raiva do povo", de quem é a frase: "A política tomou a decisão de inundar a Alemanha" - referindo-se às pessoas que fogem a uma guerra civil. Safranski recebeu há pouco o prémio Ludwig Börne na Paulskirche em Frankfurt (um dos berços da Democracia alemã). A laudatio foi dita por Christian Berkel, um actor famoso em Berlim, muito apreciado na empresa Springer.
- Por sua vez, nas Edições Springer - que afastariam todas as acusações de proximidade da AfD - trabalha o publicista Henryk M. Broder, que com o seu blogue "o eixo do bem" criou um parque de recreio para edições de extrema-direita. Por exemplo para Vera Lengsfeld, que em tempos foi  deputada do CDU mas agora aparece em público com Frauke Petry.

(...)

Quando o país marchou em direcção à direita, a responsabilidade estava nas mãos de Angela Merkel. A ameaça à classe média, a precarização das classes de rendimentos mais baixos, a desilusão de muitos alemães a respeito da justiça da repartição e da igualdade de oportunidades - tudo isto aconteceu durante o período em que ela foi chanceler. E tudo isto faz o berço da AfD.
Merkel é a mãe do monstro. É responsável pela mais importante - e devastadora - evolução política e social dos últimos 25 anos.


terra das maravilhas (2)

Os donos da Wunderland (os do post anterior, que confiam nas pessoas que dizem que não têm dinheiro para pagar um bilhete) puseram agora no facebook um filme a apelar ao voto.

Só por ser para vocês, dei-me ao trabalho de encontrar um versão com legendas em inglês. :)

Título do filme: os absentistas do apocalipse / e as consequências




terra das maravilhas (1)


(foto)


O Spiegel contava há tempos que a "Wunderland"("terra das maravilhas", uma sala em Hamburgo com uma colecção absolutamente extraordinária de comboios e paisagens em miniatura) resolveu abrir as suas portas durante alguns dias do mês de Janeiro às pessoas sem possibilidade de pagar um bilhete. A ideia era muito simples: na bilheteira, se as pessoas dissessem que não podiam pagar o preço, deixavam-nas entrar sem pagar.

Alguém, irritado por ter visto lá refugiados, enviou uma carta ao gerente da casa dizendo que costumava visitar a Wunderland, mas que ia deixar de o fazer, uma vez que não concorda com a política da Merkel de deixar entrar no país refugiados económicos, nem com a decisão de deixar estes refugiados económicos entrar de graça naquela sala, obrigando quem paga o bilhete a suportar também os custos dos outros. Terminava com "desejo-lhe dias sem bombas".

Os dois irmãos que gerem aquele espaço, Gerrit e Frederik Braun, contaram que a primeira reacção foi pensar que se tratava de uma brincadeira. Telefonaram ao remetente, dizendo que tinham lido a carta e que estavam sem saber se era para rir ou para chorar. Resposta: Aqui só nos dá vontade de chorar, quando vemos fotografias de estrangeiros na "terra das maravilhas".

A frase "desejo-lhe dias sem bombas" foi interpretada como uma ameaça para que deixassem de receber refugiados. Leio de outra maneira: tal como simpáticos comentadores do Observador me dizem que a próxima a ser violada pelos refugiados havia de ser eu, o autor da carta teme (ou deseja o castigo?) que a sua "terra das maravilhas" seja alvo de um atentado terrorista.

Como é habitual naquela empresa, quando se tem de tomar decisões importantes, o gerente foi falar com os funcionários sobre essa hipótese de chantagem e a reacção adequada. Ao contrário do costume, desta vez houve unanimidade na resposta: os 25 funcionários com quem conversou foram todos de opinião que era preciso tornar aquela carta pública. A Wunderland publicou a carta no facebook, com este texto:

Basta! Por favor, partilhem e peçam que outros também partilhem, para que todas as pessoas de bem que até agora se têm limitado a observar nos ajudem a fazer ouvir a nossa voz.
Trata-se da nossa iniciativa em Janeiro "não posso pagar", que deixou entrar 18.000 pessoas na Wunderland. Era dirigida a TODOS os que não têm  possibilidades económicas. 25% dos visitantes eram refugiados. A iniciativa baseava-se em confiança, e correu muito bem. Sentimos a felicidade e a alegria das pessoas! Infelizmente, no meio das inúmeras cartas de agradecimento, também recebemos mensagens como a desta fotografia.
Onde é que vamos parar, se uma iniciativa como a nossa leva a que algumas pessoas movidas pelo medo nos escrevam estas mensagens de ódio? O problema da nossa época virtual é que as mensagens de conteúdo negativo se espalham rapidamente, e as respostas positivas não têm o mesmo impacto, o que permite criar ideias completamente erradas.
Que sejamos capazes de, em conjunto, tomar partido por um mundo que ponha o humanismo em primeiro lugar. 



Na entrevista, os irmãos falaram ainda sobre o risco de confiar nas pessoas e a felicidade que sentiram ao ver que não foram enganados. Apesar de terem tido mais 18.000 visitas que o habitual naquele mês, as receitas no bar e na loja não aumentaram - o que significa que aqueles pais que entraram sem pagar bilhete não tinham sequer dinheiro para pagar uma bebida ou uma pequena recordação para os seus filhos.
Conta um dos irmãos: "Assistimos a cenas encantadoras. Crianças a chorar de felicidade, pais a chorar. O único desejo de um rapazinho para o Natal era uma visita à Wunderland, e os pais não lho podiam dar. Agora estavam ali os três, e os pais choravam. Também me vieram lágrimas aos olhos. Era capaz de pagar para ter momentos como este."
E acrescentam: "Nós não perdemos dinheiro por deixar entrar quem não pode pagar. Os custos são os mesmos. Todas as empresas semelhantes a nós - jardins zoológicos, museus, etc. - podem fazer o mesmo. Não têm nada a perder, só têm a ganhar. E o mais importante é que nestes tempos em que tantos sentem desconfiança e medo, uma iniciativa como esta mostra que é possível confiar nas pessoas e ser recompensado por isso. Por isso mesmo é que esta carta nos chocou tanto."


18 setembro 2017

Wolfgang Schäuble


Wolfgang Schäuble faz hoje 75 anos.
Como faz anos, e só por esse motivo, vou-lhe fazer um elogio.
Há dias afirmou que não vale a pena ter ilusões sobre as reformas. Se a evolução demográfica continuar como está (baixa taxa de natalidade e as pessoas a viver cada vez mais anos) é impossível garantir reformas decentes.
E diz isto em plena campanha eleitoral! O homem tem coragem.



15 setembro 2017

o monstro no labirinto

Mais uma para a conta da insularidade: a Gulbenkian vai apresentar a ópera que cantei em Berlim em 2015. Ena, ena! Que vontade de estar em Lisboa neste final de Setembro!

Será que vão encená-la também como em Aix-la-Provence? Ou será que, por falta de espaço, se limitarão a concertante? A encenação apresentada na estreia mundial, em Berlim (de Annechien Koerselman) era relativamente descritiva, enquanto a francesa era muito mais ousada: política e simbólica, projectando para temas muito actuais.

A versão francesa pode ser vista aqui: Le monstre du labyrinthe. E a alemã, aqui: Was lauert da im Labyrinth (reparem nas trompas, especialmente quando fazem as aparições do monstro: o português Ricardo Silva, que na altura era bolseiro da Orchestra Academie, era o responsável por esse grupo). 

(Na altura em que andei metida nesta aventura, fui contando: I, II, III, IV, V, VI, VII)


das tentações de uma administradora de enciclopédia

A tentar escolher a palavra de hoje para a Enciclopédia Ilustrada, vejo que 15 de Setembro é o dia internacional da Democracia.

A palavra de hoje tem de começar por G. Penso: "gatinhos".

(Vou tomar um café, e já animo.)


14 setembro 2017

Karl Marx, Das Kapital, e the Encyclopaedia Britannica we have at home



Hoje faz 150 anos que foi publicado Das Kapital, de Karl Marx.

Há dias estava a almoçar com uma senhora simpática no museu De Young que  contou daquela vez que a neta dela tinha de escrever um trabalho sobre Marx e resolveu fazer à maneira antiga, consultando a enciclopédia lá de casa (uma Britannica de 1911) em vez de ir à internet.
De modo que lhe saiu um trabalho muito completo sobre Karl Marx - antes da revolução russa.


Da série "os americanos, não dá mesmo para entender"

Entrei num autocarro do Muni, em San Francisco, e perguntei ao condutor se podia andar de metro com o mesmo bilhete. Ele disse-me que em princípio podia, mas - pelo sim pelo não - o melhor era não validar o bilhete logo ali no autocarro, "nós não ligamos muito a essas coisas".


da série "os alemães são todos uns grandes antipáticos e outros preconceitos"

Entrei no autocarro e disse ao condutor que queria comprar um passe mensal. Ele respondeu que não me podia vender, mas que me levava sem bilhete até à estação de S-Bahn seguinte, onde podia comprar um.

E assim foi. De facto, era o que eu lhe ia propor, mas ele antecipou-se.


só para dizer

Era só para dizer que a Carminho é uma antipática, e para perguntar se alguém pode recomendar um bom ortopedista (nada de grave, é só por causa de umas coisas aqui no cotovelo).

Além disso: Marcelo Gonçalves    
(ó senhores que fizeram este filme: porque é que se esqueceram de filmar os instrumentistas, e pôr o nome deles? isto não é a capella!)


Carminho & Chico Buarque | Carolina (Video Oficial) from Calabouço Filmes on Vimeo.


13 setembro 2017

isto é connosco (2)

O que já comecei a fazer para participar no esforço de contenção de danos no planeta são pequenos passos:
1. Comer muito menos carne - A produção de carne de vaca para a alimentação humana contribui mais para o aquecimento global que o uso de automóveis. É algo simples, e nem sequer custa muito, sobretudo se considerar também o sofrimento dos animais criados e mortos em condições terríveis para a carne chegar tão barata à minha mesa.
2. Evitar usar o carro se posso ir a pé, de bicicleta ou de transportes públicos.
3. Evitar viagens de avião para distâncias que posso fazer facilmente de comboio.
4. Comprar menos coisas, de muito melhor qualidade, e/ou usadas. Encomendar móveis num carpinteiro do meu bairro em vez de ir à IKEA. Consertar em vez de comprar novo.
5. Comprar produtos produzidos na Europa - para ter alguma confiança nas condições de trabalho das pessoas que os fazem, e para evitar transportes de longas distâncias (sim, eu sei que há empresas europeias que fazem negócio justamente da mudança de etiquetas, mas é preciso começar por algum lado).
5. Próxima mudança: comprar alimentos num fornecedor biológico e tão regional quanto possível (é mais caro, o que tem a vantagem de obrigar a pensar duas vezes antes de comprar, e de evitar ainda mais deixar estragar comida).
Bem sei que é uma gota de água no oceano, mas é um passo na mudança de mentalidade e de hábitos. Se houver muitas pessoas com esta atitude, começará a haver base de apoio para os políticos ousarem propostas de mudança mais radicais.

**

Se me deixassem mandar um bocadinho, para começar propunha que cada voo realizado implicasse o pagamento das despesas de reflorestação de x hectares da Amazónia, ou em Madagáscar, ou na Indonésia, ou até no Sul da Europa - por exemplo. Ou a recolha de x toneladas de plásticos num oceano qualquer. E que esse preço tivesse crescimento exponencial quanto mais baixo fosse o número de pessoas transportadas no voo (que àquele pessoal dos jets privados isso pouco custa, e ao mundo dá muito jeito), ou quanto mais curta fosse a rota.

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Se me deixassem mandar ainda mais, fazia reflectir os custos reais totais no preço dos produtos. A energia nuclear, por exemplo: se o seu preço incluísse os seguros contra os riscos de um acidente nuclear, bem como os custos de armazenamento dos resíduos nos próximos 500 anos, deixava de ser considerada uma energia barata. Se os preços dos morangos que se vendem na Alemanha no Natal incluíssem o custo ambiental de os trazer de avião do outro lado do mundo, deixava de haver quem os comprasse nessa época do ano. Se o preço das bananas e das flores incluísse os seguros para tratamento e indemnização dos trabalhadores vítimas dos químicos, esse tipo de produção deixava de ser um negócio lucrativo.

**

A continuar.
(A luta continua. Ainda agora começa.)


12 setembro 2017

isto é connosco

(fonte)

Li algures a sugestão de que se dê aos furacões o nome de políticos que se opõem aos esforços mundiais para lutar contra o aquecimento global. As notícias passariam a ser assim: O furacão Trump causa mais de trinta mortos com inundações sem precedentes em Houston. Ou: O furacão Trump destruiu 95% das casas de Barbuda. Toda a população da ilha está a ser evacuada.


A ideia tem muito interesse, mas temos de ir mais longe. Dizer que a culpa é do Trump é demasiado fácil. Isto não é apenas responsabilidade dos políticos, isto é antes de mais responsabilidade das sociedades que querem ter determinado nível de vida sem se preocuparem com as consequências para o planeta, e exigem que os seus políticos lhes garantam empregos, desafogo económico, vida boa. Os furacões são consequência do somatório das nossas decisões de andar de carro em vez de bicicleta ou transportes públicos, de recusar perder empregos com o encerramento de actividades económicas mais poluentes, de comer toda a carne que apetece, de ir passar fins-de-semana em Nova Iorque só porque o bilhete de avião estava barato. Isto somos nós a querer manter e melhorar o nosso nível de vida e o nosso conforto mesmo que isso provoque custos terríveis para o planeta. E são os pobres de todo o mundo a querer viver como nós.

Por isso, proponho que, em vez do nome dos políticos, os furacões tenham o nome dos países que mais contribuem para o aquecimento global: China em vez de Harvey ou Trump. China, EUA, Índia, Rússia, Japão, Alemanha, Irão, Coreia do Sul, Canadá, Brasil.

No entanto, esta atribuição de culpas tem um erro grave: não considera a dimensão populacional dos países. Melhor seria trabalhar com os números per capita. É óbvio que a China e a Índia têm de estar no topo da lista dos países que mais poluem, porque são os que têm maior população (4 vezes mais que os EUA, que vêm em terceiro lugar nessa lista). Mas será que um chinês polui mais que um europeu? Se, em termos per capita, os chineses poluem menos que os alemães, porque é que é dos chineses que se espera que mantenham um nível de vida mais baixo? Sim, bem sei porquê, mas há aqui uma injustiça e um egoísmo flagrantes.

O esforço para salvar o planeta terá de passar necessariamente pela alteração dos hábitos de consumo nos países mais ricos, pelo corte radical nos transportes de pessoas e mercadorias, e por uma ajuda efectiva dos países mais ricos aos mais pobres, para que estes possam melhorar a economia sem pôr em causa o precário equilíbrio da Natureza.

Mas será que estamos dispostos a mudar e a abdicar do nosso conforto? E seremos capazes de o fazer voluntariamente sem críticas e ressentimentos contra aqueles que não fazem os mesmos sacrifícios que nós? E teremos a coragem de fazer uma espécie de plano Marshall para salvar o planeta? E saberemos aceitar um empobrecimento relativo sem termos derivas nacionalistas e xenófobas?


11 setembro 2017

a vida é um salão de cabeleireiro

Abro o DN online e vejo que a notícia mais popular é "Papa ferido em acidente no papamóvel". No Spiegel também tem um certo realce. O melhor é nem ir espreitar os outros.

Oh pá, um pequeno corte na sobrancelha é notícia?!!!
E a notícia mais lida do dia?!

(Hola, Caras, Nova Gente - se não vamos ao salão de cabeleireiro, o salão de cabeleireiro vem a nós.)

10 setembro 2017

"a melhor geração"

Trouxe do Xilre, porque gostei muito da perspectiva positiva. Já chega de dizer mal de quem nos vai pagar a reforma... ;)


Falem da fixação no Instagram, da vida no WhatsApp, das noites perdidas no Youtube, do encerramento nos quartos, dos ‘shots’ de fim-de-semana, dos desmandos em Lloret de Mar, falem da inebriação dos festivais de verão, das incertezas e das arrogâncias, do desinteresse pelos livros, falem dos universos substitutos, de Westeros e da Marvel e do ‘anime,’ falem de como antes era bom e agora é mau, falem de como os pais sabiam dos rios e dos caminhos de ferro de Angola e de como os filhos não sabem distinguir o género humano do Manuel Germano, falem do individualismo, da competição, de gerações X e Y, falem de telefones ubíquos, de vidas em exposição permanente, falem sim, mas assestem neles os olhos com espanto e admiração e maravilha. Não há, nunca houve, geração mais determinada, persistente, focada no que quer, capaz de saltar barreiras cada vez mais elevadas, de vencer um presente que os catapulte para um futuro para o qual eles se preparam como nenhuma outra anterior sequer almejou. Que ninguém vá ao engano da demagogia fácil, lacrimosa, saudosista de um passado que nunca existiu: entrar em cursos universitários com as exigências de agora, obriga não a um ano ou dois de trabalho, mas a quarto de vida, que é do que falamos, um quarto de vida, de dedicação plena, de estoicismo, sem paragens nem abrandamentos nem perda de vista do alvo. Se eles prepararam assim o presente, o futuro está em boas mãos.


09 setembro 2017

depois das sardinhas, o bacalhau

O Mar do Norte está a aquecer mais depressa que os oceanos. Espécies de peixe mais dependentes do frio estão a desaparecer. Por exemplo: o bacalhau.

Queixam-se do turismo em Portugal? Não se preocupem, em breve isso vai acabar - quando o Algarve se passar para Föhr e Sylt.

E em se acabando o bacalhau, lá teremos de pôr as barbas de molho. Demasiado tarde, é certo, mas que nos sobra?

(Aviso já que estou a preparar meia dúzia de posts sobre as transformações climáticas. Os próximos dias vão ser deprimentes.) (Dias?! Se fosse só os próximos dias...)


eu a aprender com um puto de cinco anos

"today is officially cole's first day of kindergarten! after his orientation day earlier this week, we asked if he had made any new friends (he has a few buddies in his class already) and his reply was: "I didn't make any new friends yet. I just looked at them and made sure they were a good human, and then next time I'll try to be their friend." 💛"

Andrea Hanki (mãe do Cole), instagram


(Tivesse eu esta sabedoria, poupava-me muitos dissabores.)


fia-te na virgem...



mudanças

 (fonte)

Dantes brincava com a ideia de que a nossa "quintinha minhota", a alguns quilómetros do mar, dentro de 500 anos se tornaria uma vivenda de praia.
Por estes dias - Irma, Joseph, Katia - perdi a vontade de repetir essa piadinha.
Talvez não seja daqui a 500 anos. Pode acontecer tão mais cedo que nos passe toda a vontade de fazer humor negro. A subida do nível médio das águas do mar, e ter o deserto do Saara à porta de casa.

Por estes dias, também, uma tempestade geomagnética particularmente intensa faz com que se possa ver auroras boreais no norte da Alemanha. Desta vez não será por culpa nossa, mas algo tão fora do lugar contribui para aumentar a minha sensação de fim dos tempos.



07 setembro 2017

em trânsito (2)


"Daqui a hora e meia chego a Berlim": era bom, era.

Pouco antes da chegada prevista a Berlim, o piloto da KLM informou-nos que não sei quê não sei quê íamos aterrar em Hamburgo. Não tinha prestado atenção, porque pensei que era conversa habitual, a dizer a que horas chegamos e que tempo faz, de modo que só ouvi o final, "Hamburgo", e fiquei alarmada. O vizinho do lado também não tinha percebido bem. E muitos outros, tal como nós (coitados dos pilotos do avião, se soubessem a pouca atenção que damos ao que dizem...). As hospedeiras começaram a avançar pelo corredor explicando pacientemente: há mau tempo em Berlim, temos de esperar 45 minutos para poder aterrar, vamos ter de ir a Hamburgo reabastecer o avião. Pensei logo no furacão Ema, e na possibilidade de ter mandado um primo para a Europa. Mas as hospedeiras estavam muito calmas, explicavam de forma descontraída, se me deixassem mandar duplicava-lhes o salário: foram excelentes. 

Comentei com o vizinho da esquerda: "assim como assim, há que tempos que queria ver a nova Filarmonia de Hamburgo", e rimo-nos. Sempre é melhor remédio.

A aterragem em Hamburgo foi complicada. Uma ventania das fortes, o avião aos sacões, lembrando um filme que vi há anos de um avião a tentar aterrar em Hamburgo (se houvesse uma lista de filmes proibidos, este devia constar). Lá estávamos nós: o avião aos saltos, o pessoal muito calado, eu a imaginar a quantidade de orações que estariam a ser ditas naquele momento, as linhas daquela ligação celeste congestionadas. E, para mais, nem sequer vimos a Filarmonia.

Se foi um momento difícil para mim, que dizer do Joachim, que aterrara pouco antes no meio de grande ventania, estava no aeroporto à minha espera, via nas informações do ecrã das chegadas que todos os aviões tinham atraso, e de repente deixou de ter informações sobre o avião em que eu vinha. A linha relativa àquele voo desapareceu, pura e simplesmente. Que é que se pensa num momento desses? Mais congestionamento nas tais linhas.

Ficámos sentados nos nossos lugares enquanto esperávamos o camião do combustível. Para meu azar, ia apertada entre dois matulões. O da direita era gordo, além de alto, e ia sentado com as pernas abertas porque de outro modo praticamente não cabiam. Sem ter para onde fugir, passei todas aquelas horas a sentir o calor da perna do mal-educado. Depois desta e das várias experiências recentes em aviões norte-americanos, dou comigo a pensar que isso de comprar um bilhete para uma cadeira, e usar cadeira e meia (sendo que a outra metade é a do desgraçado do passageiro que vai ao lado), é abuso. As companhias de aviação deviam medir as pessoas que andam nos aviões, tal como medem a dimensão da bagagem. Quem não cabe no espaço previsto no bilhete que pagou, compra dois bilhetes. Ou então as companhias dão-lhe um segundo bilhete, e dividem o preço pelo total dos passageiros.
Aqui está uma questão interessante: quem deve pagar a diferença de custos relacionados com a obesidade e a altura das pessoas? Até agora, a questão tem sido resolvida de forma informal e aleatória: quem paga é o desgraçado do vizinho.

Ao chegar a Berlim tivemos de esperar pelos autocarros, depois tivemos de esperar por não sei quê. Alguém largou para o grupo: "o autocarro já chegou, mas agora falta o motorista" - por essa altura, já só nos ríamos. Quando já estávamos quase todos nos autocarros dei-me conta de que me esquecera do casaco no avião, deixei a minha mala de mão junto às escadas, subi a correr, e ouvi alguém dizer em pânico "fujam, está ali uma mala abandonada!"

De resto, nada. O Fox não morreu do coração quando me viu, o lago está bonito, a luz já tem a doçura do outono. Acabaram-se as férias de verão, quando conseguir abrir caminho pelos 20 G de fotografias que tirei, ponho aqui algumas.


06 setembro 2017

em trânsito

Aqui a inteligência rara leu 0155p e achou que era três e cinco da tarde. Não tentem compreender, que eu também já desisti. Quando descobri a asneira, já era demasiado tarde. Arranjaram-me um voo de substituição, via Minneapolis. Nunca mais me rio dos americanos que pensam que Lisboa fica na Espanha - ainda há bocadinho eu não fazia a menor ideia sobre onde fica Minneapolis. Agora sei: no meio de terra seca entrecortada por enormes círculos verdes, sob um céu cortado por riscas gloriosas em laranja e vermelho.

À entrada na Europa dei comigo de novo em frente a uma máquina de fotografar e de controle de passaporte. Levava o mesmo vestido com que entrei nos EUA há 3 semanas. Não é coincidência, é mesmo o mais confortável para voos longos. Excepto a parte do decote: passei dez horas a puxar o casaco para cima dos olhos do meu vizinho, digamos assim. Desta vez, ao entrar na Europa, estava preparada: arranjei-me bem antes de enfrentar a câmara automática. Mas fiquei registada com os olhos esbugalhados, de sono e da choradeira dos filmes. O problema é que eu até na publicidade choro, e a Delta passa publicidade antes de cada filme. Vi seis. Ou cinco, já não sei bem (ai que sooooono!).

Daqui a hora e meia chego a Berlim. Coitadinho do Fox, se calhar era melhor darem-lhe um calmante agora mesmo.


apontamentos de San Francisco (4)

Foi no Japan Center que descobri a existência de bares de sushi com barquinhos, e os cozinheiros a preparar os pratos do lado de lá do canal. Um bocado kitsch, reconheço, mas quando o descobri, em 2000, fiquei fascinada. Diga-se para meu desconto que tinha filhos pequeninos, e costumava pôr os meus olhos ao nível dos deles.
Voltei ao Japan Center nestas férias, e pareceu-me uma triste sombra do que conheci há 17 anos. Uma espelunca. Querem lá ver que já nem o Japão é eterno?

Segui de lá para a Fillmore e as suas milhentas lojas pequenas e muito bem decoradas, e já que estava por ali resolvi descer as curvas da Lombard. Fui pela Broadway, tentando manter-me na crista do monte, mas à parte uma escola privada de onde estavam a sair os miúdos em uniforme - as meninas saíam de um edifício, os rapazes saíam de outro - não havia nenhum movimento na rua. Tive a triste ideia de descer para a Union, por causa das lojas e assim, e quando dei pela asneira já tinha aquelas ruas de declive impossível à frente do nariz. Subi, que remédio. A pensar que quem planeou San Francisco devia ser parente do funcionário da empresa de aluguer de automóveis que me atendeu na semana passada. "I understand que há colinas íngremes, mas nós cá só desenhamos mapas em papel quadriculado."

*

A cidade está cheia de cartazes a anunciar uma exposição de Degas na Legion of Honor. Fui ver, e não era uma exposição de Degas, era uma exposição excelente sobre o tempo dos chapéus, com alguns modelos originais desses tempos (lindíssimos!), quadros de senhoras com chapéus e do próprio trabalho de os fazer. Tinha vários quadros de Degas, e de muitos outros colegas, revelando esse lugar do universo feminino e o trabalho artístico e extenuante das chapeleiras.
Senti-me enganada, mas gostei muito da exposição.

*

Quando foi aberto, o novo museu De Young tinha um restaurante muito bom e a um preço bastante acessível. Continua bom. Já o preço...
De resto, continua um belo lugar para se passar uma tarde. A começar pela torre por cima do parque e com vistas largas para toda a cidade.
Desta vez tinha uma exposição especial com trabalhos de artistas African Americans do sul dos EUA.
E questionava a necessidade de informar que se trata de "African American". Diz que começa a ser tempo de lhes chamar simplesmente artistas.

*

Passear no Presidio, atravessar a Golden Gate Bridge a pé, por causa do calor esperar quase uma hora pelo autocarro para Sausalito, fartar-se de esperar, começar a caminhada para Sausalito, ver passar dois autocarros quase seguidos. Que importa? Apesar do calor, foi um belo passeio.
Junto à baía, olhei para uma das ruas que subia a pique pelo monte (sim, parece que também sobraram algumas folhas quadriculadas do mapa de San Francisco para planear as ruas de Sausalito). Estava demasiado cansada para sentir sequer curiosidade. Uma velhinha simpática, que estava ao lado do seu carro, viu-me a olhar para a rua e ofereceu-se para me dar uma boleia. Mas nem assim. Fiquei por ali, a conversar com ela enquanto os olhos se confundiam no emaranhado de mastros de barcos atracados.
Apanhei o ferry para San Francisco quando o sol já escorregava para a ponte, e apanhei o Cable Car de trajecto mais íngreme, e fui jantar com uma amiga - a que às vezes nos cuidava dos filhos à noite quando eles eram pequeninos, a que em vez de os meter na cama passou um serão a dançar com eles a música do Chico César (o que tinha dedicatória: "obrigado por me traduzir") com graça felina e olhos a brilhar de riso. Abençoada.


31 agosto 2017

apontamentos de San Francisco (3)

Passeei com a minha amiga pelas ruas da vizinhança. Ela contava-me do tempo em que neste bairro viviam pessoas de todos os países, etnias, culturas e níveis sociais. Por exemplo: a sala dela, onde jantamos todos os dias, era o espaço de "children breakfast" dos Black Panther. Na rua, apontava-me as casas uma a uma. Esta é a última família filipina do bairro. Naquela casa vivia uma família de african americans - uma mulher com uma ranchada de filhos, netos ebisnetos com todo o tipo de percursos e histórias pessoais; estava a cuidar de um dos bisnetos, e quando morreu venderam a casa, esta casinha, por dois milhões. Esta aqui foi ocupada por mulheres negras. Aquela estava em péssimo estado, mas um casal gay está agora a transformá-la numa pequena jóia, como se vê. E mais uma casa em obras, que foi vendida por 2,4 milhões antes do restauro - sei lá por quanto a venderão depois de muito bem arranjada.
Tudo naquelas casas é impecável. Perfeito. Suspeito que os proprietários contratam jardineiros até para cuidar dos vasos que têm à janela.

*

Programa para o dia: fazer peixinhos da horta para o pot luck do grupo que vai reunir esta noite para combinar o acampamento em Salt Point este fim-de-semana.
Disse aos meus amigos que ia fazer a receita original de tempura, aquela que levámos para o Japão e os japoneses no roubaram, roubam-nos tudo, somos uns desgraçados, disse eu. E falei do "castela", o nosso pão-de-ló que os japoneses vendem com nome de espanhol. Duas vezes roubados!, rematei.
O meu amigo riu-se. Estudou História em Harvard, sabe interpretar as minhas piadas.

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Fui ao Haight Street Market comprar ovos e feijão verde. Dantes, o Haight Street Market era a loja de uma família grega que vendia frutas e legumes baratos e de qualidade às vezes bastante questionável. Quando se começou a falar na instalação de um Whole Foods ao fundo da rua, eles alugaram a loja do lado, transformaram a loja num pequeno supermercado moderno, agradável, com muitos produtos biológicos e um dely. O pessoal da vizinhança vai ao Haight Street Market, os de fora vão ao Whole Foods. Fui ao mercado da vizinhança comprar coisas para os peixinhos da horta. Na secção dos ovos tinha um cartaz a anunciar ovos de Petaluma, com as galinhas à solta na paisagem, dizendo que comiam as suas comidas favoritas (ervas, sementes e insectos) e os galinheiros eram móveis, para poderem ser levados atrás delas. Lembrei-me logo da minha avó, que fechava as flores cuidadosamente atrás de uma sebe de rede fina, e deixava as galinhas à solta no quintal. Uma dúzia de ovos das galinhas de Petaluma custava 9 dólares. Que é que a minha avó fez errado, que se queixava sempre que o dinheiro não chegava?
Deixei os ovos de 9 dólares para os donos de casas de 2 milhões, e comprei os ovos mais baratos, quer dizer, os menos caros: 4 dólares. De galinhas sem gaiolas, sem hormonas, sem antibióticos, sem estimulantes, e com liberdade para voar. Ao menos isso.

Estou a pensar arranjar meia dúzia de galinhas para ter no meu jardim em Berlim.